A água que nos falta

Opinião de João Fróis

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Vivemos tempos de seca extrema, com o País à míngua do precioso fluido que é a fonte da vida tal como a conhecemos. E enquanto desesperamos pela bonança líquida dos céus, devemos repensar o modo como vivemos e fazemos uso da água, antecipando cenários que não se afiguram nada positivos para os anos vindouros.

Confesso-me um apaixonado pela água. Naturalmente no mar, onde tudo começa e acaba e nos seus ainda imensos mistérios e na paz serena que nos consegue transmitir quando o intuímos em contemplação. Mas também muito nos rios e no seu curso que se quer imparável, a desbravar vales e montanhas e alimentar paisagens inteiras de vida até à foz. Mas também gosto de precipitação em todas as suas formas, seja a chuva que tantos dizem desgostar, seja sobretudo a neve, essa majestosa forma de cobrir a terra de abençoada magia branca. A verdade é que a água é vida e o nosso corpo reflete-o nos dois terços líquidos que ostenta saudavelmente. E que dizer dos cerca de oitenta e três por cento do nosso cérebro? Ora é aqui que reside o paradigma, e perceber até que ponto este ambiente líquido consegue perceber e gerir em função dos dados líquidos que observa em seu redor?

Portugal foi este ano assolado por uma vaga de incêndios particularmente nefasta e dramática, com mais de uma centena de mortos, centenas de feridos e prejuízos tamanhos. Não sendo a causa primeira da sua ocorrência a verdade é que o clima quente e seco e secura dos terrenos contribuiu em muito para que a dimensão das ocorrências atingisse níveis assustadores. Os climatologistas há muito que avisam que as previsões nos são desfavoráveis, estando aliás toda a bacia mediterrânica e a península ibérica em graves riscos de secas ainda mais severas nas próximas décadas. Ora, face a isto, há que tomar medidas, mais que imediatas, sensatas e que reflitam o melhor da ciência. Mais do que nunca há que saber aproveitar ao máximo toda a água disponível e distribuí-la de modo racional. E isso passa muito pela sábia gestão do território, da floresta e dos recursos hídricos que agora estão em fortíssimo stresse negativo. Este é o tempo de reunir os melhores pensadores, cientistas e especialistas de várias áreas para gizarem a régua e esquadro as melhores estratégias para prevenir incêndios de larga escala, escassez de abastecimento de água a populações, irrigação de campos agrícolas e explorações pecuárias e pastoris e uma manutenção séria de lagoas, rios e ribeiros.

Longe vão os tempos de outonos chuvosos, invernos frios e primaveras igualmente chuvosas. Recordo cheias recorrentes na bacia do Tejo, e algumas já este século, mas temo que esta abundância de água não venha a ocorrer senão em inusitadas tempestades que despejem em horas o que deveria cair em semanas, destruindo ao invés de enriquecer. Cheias que inundavam o Douro e deixavam o Porto e Gaia em sobressalto e a Régua a banhos, o Mondego a ameaçar a baixa histórica, Águeda com a lama a invadir as ruas. Habituámo-nos a ser um País de sol mas com água abundante, mas parece que só o primeiro vai prevalecer, infelizmente.

E assim vamos ter que mudar a forma como vivemos e usamos a água, necessariamente, dando primazia aos seus usos essenciais e gerindo todo o seu uso, começando pela reconversão de boa parte das tubagens e canalizações que derramam milhões de litros todos os anos em perdas acidentais. No entanto Portugal parece querer continuar com os vícios que tem mantido ao longo de décadas e a recente decisão de criar uma empresa pública para gerir a floresta leva-nos ao pior dos cenários, com mais “jobs for the boys” e as suas habituais incompetência, burocracia e morosidade na execução das medidas que há muito carecem de ser tomadas. E assim vamos, alegremente, empurrando os problemas com a barriga e esperando que, nesta caso, São Pedro nos possa ajudar a resolver mais este problema e que, tal como os incêndios, deixe de ser notícia quando o problema acaba. Sinceramente, e para voltar ao tema água, só tenha pena que um dos potenciais dilúvios que nos pode acontecer, não ocorra, com a precisão de um laser, sobre estes políticos medíocres, nepóticos e incompetentes e os leve na sua torrente para bem longe destas paragens, mar dentro onde não falta água para lhes lavar as consciências!

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