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A ilusão na mão

Opinião de João Fróis

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Quantos de nós já se detiveram, nem que por segundos, a olhar uma mesa de um qualquer restaurante, onde todos os comensais estão em silêncio e debruçados sobre os seus smartphones? Esta imagem pode ser replicada em tantas outras situações mas mantém em todas elas a mesma inquietação profunda sobre o que lhe subjaz. Este alheamento da realidade tem razões várias mas o mais preocupante, desde logo, é o afastamento entre as pessoas e os fenómenos agudos desta nova forma de solidão.

O facto de ter nascido e crescido num tempo em que a tecnologia estava nos antípodas da digitalização, permite-me ter esta perspetiva desligada das ilusões tecnológicas. Uso a tecnologia mas não sou seu escravo. Admiro o seu potencial mas não a venero. E um smartphone, com todo o ser arsenal de ligações virtuais ao mundo, começa sempre por ser um telefone e é nessa configuração primária que o vejo, e em que me permite fazer algo tão aparentemente simplista como falar com alguém onde quer que esteja. Falar, comunicar, ouvir a voz desse amigo, familiar ou colega, esse alguém com quem tenho ligação empática e com quem me dá prazer conversar, mesmo que à distância e saber como ele está. Simples mas pelos vistos em desuso. As mensagens e likes nas redes sociais vieram substituir em modo frio o calor que só a voz nos transmite. E nesse distanciamento se vão mantendo as pessoas, alimentando a fogueira de vaidades que as redes sociais propagam e onde ninguém surge mal, com problemas ou em sofrimento, a não ser as notícias de figuras públicas, difundidas ad nauseum como que em catarse das dores próprias não assumidas.

Como explicar a estas novas gerações os encantos de ligar e conversar? E mais do que ligar, o prazer em saber desse outro alguém, de manter acesa a chama da amizade, da humanidade e comunhão de valores e interesses, dessa cola única que une personalidades diferentes e as mantém ligadas para a vida? Parece tarefa ciclópica, a roçar o impossível pois a sua incompreensão desse passado “distante”, em que não havia wifi gratuito e ligação ao mundo na palma da mão, é gritante. Olham-nos como dinossauros, seres míticos que cresceram na rua, entre pó, paus e pedras e se contentavam em fazer coisas triviais e desinteressantes como saltar à corda e ao alho, jogar com caricas e pregos, andar de bicicleta e carrinhos de rolamentos em bandos que se eternizavam na rua até voltarem a casa, sujos mas felizes, ao final da tarde.

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O mundo surge-lhes fácil, ali à mão e já nem precisam de perguntar aos mais velhos pois o Google dá quase todas as respostas. Passeiam entre vídeos, riem-se de posts com as mais variadas distrações e não se ligam a nada. Consomem informação mas não retêm nada de essencial. E assim vão avançando, desligados da vida lá fora e entregues a esta virtualidade que isola mais que congrega e cria uma falsa sensação de suporte. Mais preocupante é vermos os pais que permitem que os seus filhos cresçam assim, alheados e desconectados com a família e os seus valores determinantes. Confesso que me incomoda assistir a mesas de pessoas num silêncio perturbador e todas elas numa prisão ocular nos seus aparelhos luminescentes. Assim como me alegro em ver uma outra ao lado onde pessoas convivem e sem terem sequer os seus aparelhos à vista. É neste clivagem de realidades que o mundo avança e nenhuma tecnologia pode substituir o que de mais essencial temos em nós, os valores, as emoções, o calor da partilha dos afetos, a profundidade de um abraço, um olhar terno, uma palavra amiga.

Cabe a cada um não deixar morrer a humanidade que habita dentro de si. Como sempre o nosso maior poder é posto à prova, a capacidade de escolher. Optar e decidir são poderes especiais que nos foram concedidos pelos avanços sociais e que ainda não são comuns no planeta, onde muitos não têm nem liberdade nem opções. Viver no melhor dos mundos e escolher viver no mundo virtual é um direito mas saber encaixar os custos dessas escolhas também pressupõem um dever, de responsabilidade, que não pode ser descartada como uma aplicação ou um comentário. É nesta dança estranha que vamos caminhando, entretidos por tudo e nada e sem tempo para o que mais precisamos, afeto, comunhão e amor. Nenhum aparelho jamais inventado trará esses gadgets. Saibamos pois entendê-lo e separar o útil do fútil. Uma letra apenas com todo um mundo de distância pelo meio. Conversemos então! E a escrita e leitura são outras belas faces desse imenso prazer de comunicar. Bem hajam comunicadores de sempre.

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