A nau catalã

Opinião de João Fróis

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A Europa parou ontem ao final da tarde para ouvir o discurso de Puigdemont em Barcelona. O presidente da generalitat, o sistema autonómico catalão, chamou a si os holofotes, após dias quentes e cheios de incertezas depois do polémico referendo não vinculativo de 1 de Outubro, onde cerca de 90 por cento desses votantes o fizeram em favor da independência face a Espanha. Foram dias tensos com Madrid a não aceitar quaisquer rasgos independentistas e a lembrar a unidade constitucional espanhola e a sua defesa a todo o custo. Mas a saída de algumas sedes de empresas da Barcelona terão tido um papel determinante no conteúdo discursivo de ontem. Ao assumir a legitimidade da assunção da independência para logo a suspender para negociações com Madrid, Carles Puigdemont deu um tiro nos pés e terá deitado por terra esta pretensa guerrilha política que vem de longe e se tem vindo a agudizar nos últimos anos. O mito de uma Catalunha “motor da economia” espanhola, contribuidora com cerca de 30 por cento do pib, caiu com estrondo perante as ameaças e algumas concretizações de saídas de empresas da região. O motor começou a gripar e o medo instalou-se nas hostes independentistas, estando bem vincado no rosto de um Puigdemont mais vergado que propriamente efusivo.

 

Convenhamos que são boas notícias, quer para Espanha, quer para a União Europeia e o seu projeto em curso. Haver dissidências no seio da quarta economia da UE seria um duro golpe na ideia subjacente à construção da união, abrindo brechas no edifício estruturante desse ideal comum e alimentando outros assomos independentistas que vão ganhando fôlego nas asas populistas dos radicais de direita. A História ajuda-nos a perceber que em Espanha existem dezassete regiões autonómicas, reconhecidas na constituição de 1978 e, dentro destas, cinco com caráter especial, ou seja, com uma autonomia reforçada, sendo a Catalunha uma delas. Tem sido um trajeto de consolidação da união dos reinos antigos de Leão, Castela e Aragão, promovido no séc. XVI pelos reis católicos, unindo para fortalecer um país de muitas identidades e raízes diversas mas com traços culturais semelhantes. As relações com a Catalunha conheceram várias fases e só após a queda do regime de Franco a autonomia conheceu novos avanços, voltando o reconhecimento da língua catalã e reforçando o caráter diferenciador desta região peculiar.

 

Muita coisa está em jogo e não se vislumbram ainda quais os caminhos dos entendimentos entre Madrid e Barcelona. A ideia de uma federação, a exemplo do modelo administrativo alemão, pode ser uma solução mas isso poria em causa a monarquia constitucional espanhola. Um reforço dos poderes autonómicos do parlamento catalão pode ajudar a refrear os ímpetos independentistas e dar mais força aos unionistas da Catalunha e que se reveem numa Espanha unida e sólida. A UE tem também aqui um papel fundamental ao não reconhecer legitimidade a novos países saídos de cisões dos seus membros. Deixar a Catalunha a falar sozinha é mais de meio caminho para a travar na força dos seus intuitos e o discurso frouxo de ontem pode ter sido indiciador disso mesmo.

 

A Europa da união tem de tudo fazer para a reforçar, sob pena de se desmembrar nestas derivações nacionalistas que vão crescendo no seu seio, podendo feri-la de morte. Convém lembrar que Espanha lutou durante três décadas com a ETA e os seus violentos assomos independentistas, conseguindo superar a sua face negra do terrorismo politizado e integrando o país Basco numa autonomia reforçada mas parte inteira de uma Espanha forte e unida. E que na Europa existem problemas mal resolvidos em vários dos seus membros. A Bélgica mantém um braço de ferro latente entre flamengos e valões, a Itália disfarça os ímpetos nacionalistas da Lombardia e no grande norte poderoso face ao sul menos desenvolvido. Nacionalistas húngaros alimentam o sonho do velho império austro-húngaro apenas desaparecido nos escombros da 1ª guerra mundial, a extrema direita polaca acena com bandeiras que mancharam aquele país a sangue na 2ª grande guerra. Nos anos 90 do séc. passado a Iugoslávia de Tito desmembrou-se numa guerra sangrenta de onde voltaram a sair as velhas nações que a formaram mas a custo de milhares de mortos e ampla destruição. Nas ilhas britânicas, não parte da união mas muito europeias, as tensões continuam vivas e a união sob a Coroa vai-se mantendo com base em acordos e consensos políticos hábeis. É essa habilidade que se pede nas negociações que agora se abrem na vizinha Espanha. Somos todos europeus e precisamos de uma Europa forte e unida. Esse esforço foi conseguido após muitas guerras internas e com amplitude mundial e vários arranjos políticos e de fronteiras, numa missão estruturante que a CECA, a CEE e, mais tarde, a UE vieram consolidar a bem de todos. Muito há a fazer e harmonizar as reais diferenças entre estados é claramente uma delas. Mas manter a união interna de alguns desses estados é igualmente prioritário. Acredito que a Catalunha continue espanhola. Provavelmente com o seu estatuto autonómico ainda mais reforçado mas a bem da união, nacional e europeia. Haja bom senso e sentido de estado de todas as partes. Portugal agradece. A UE agradece.

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