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A ONU em Português

Opinião de João Fróis

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Num ano em que o futebol colocou Portugal nos escaparates mundiais, a tomada de posse de António Guterres, como secretário-geral das Nações Unidas, guinda-nos a patamares de excelência e responsabilidade há muito não conhecidos.

Num mundo entregue a conflitos sérios e duradouros, onde a Síria encabeça uma lista negra de guerras em curso, a chegada de Guterres às Nações Unidas é algo que merece o nosso aplauso, por ser um dos nossos, mas muito mais pelas suas qualidades diplomáticas e representativas junto dos que mais necessitam de proteção.

Recordemos que a ONU nasce logo após o fim da 2ª Guerra mundial, em Outubro de 1945, com o intuito maior de evitar novos conflitos aquela escala medonha. Presidir a uma organização onde se sentam mais de 190 países, é ter a batuta que comanda uma imensa orquestra onde nem sempre a afinação é alcançada e em que as boas intenções de acudir aos despojados dos conflitos, fica sempre presa às contribuições financeiras dos mais poderosos, tantas vezes fechados sobre os seus próprios dramas nacionais e pouco despertos para olhar mais longe.

Guterres evoluiu de um primeiro ministro demissionário, bem falante mas titubeante nas contas mestras, para um alto representante dos refugiados, sem medo nem pudores em dar a cara e pedir a atenção e foco que essas feridas abertas careciam a todo o momento. Com as qualidades inatas de um bom português, de bom trato com todas as diferenças e sábio a criar aliados de bons propósitos, almejou vencer uma corrida contra os interesses dos poderosos, sempre sereno e confiante e com uma humildade desarmante. O mundo sentiu que estava ali um homem bom, feito da fibra altruísta que já poucos acreditam poder existir num político atual mas que se afirma pela generosidade com que se empenha, pela crença num mundo melhor, pela fé numa humanidade, que está em queda livre, enquanto projeto civilizacional.

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Foi com qualidades similares que os portugueses de outrora abriram mundos ao mundo, chegando a todas as paragens sem as querer destruir ou colonizar, abrindo portas e conhecimento onde antes havia isolamento. Voltamos agora a ter um comandante de uma nau ainda maior, em tempos mais revoltos que os mares de Adamastor. E se tal como antes, não sabemos o que nos espera, temos a mesma fé inabalável e a vontade férrea em alcançar os nossos desígnios e é desta fibra inquebrantável que este mundo carece.

Guterres, na sua bonomia gentil vai dar voz aos que a não têm, por muito que gritem. E vai querer sarar as feridas que matam, enquanto tenta impedir que novas alastrem. É colossal a tarefa mas possível. Com coragem. Com um dos nossos. Orgulhemo-nos.

 

Crónica publicada na edição de janeiro do Jornal de Cá.

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