Aposentada… mas pouco!

Opinião de Conceição Gouveia

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Os meus olhos já correram infinitas linhas, em prosa, em verso, figurativas, etc, mas escrevê-las para que outros leitores possam observar e reter, como imagem sentida, opinando ao acaso, é obra, que ainda não vivi. Mas porque não?!

Fui professora do ensino básico em mais de 35 anos, por opção e dedicação e só senti vontade de sair quando a burocracia, as reuniões e a papelada começaram por ultrapassar o tempo dedicado à prática letiva. Mas esse momento chegou e há cinco anos a esta parte, aqui estou eu mais uma aposentada de cabelos grisalhos.

Que fazer agora? – era a pergunta que formulava todos os dias. Dedicar-me só às tarefas domésticas… nem pensar! Jardinar é bom, mas as dores na lombar não perdoam; dediquei-me à bijutaria e a outros trabalhos manuais; pus muitas leituras em dia, mas …

A vida oferece-nos surpresas. O meu filho primogénito e a minha querida nora abriram-me mais um horizonte. Duas crianças maravilhosas vieram ocupar os nossos corações e assim esta avó babada preenche os seus dias a participar nas suas tarefas escolares, em todos os momentos e ações que eles permitem, a alegria e o carinho enchem os dias da nova vida.

Mesmo assim, o tempo sobrava e de forma sistemática recriam-se ocupações várias. O voluntariado é uma delas. Desta feita, a oportunidade de pertencer aos corpos sociais de uma Associação que, como tantas outras, subsiste graças à solidariedade e boa vontade de muitas pessoas, empresas e organismos. Entretanto, sentia falta de algo mais, o convívio com outras pessoas, aprender outras matérias, praticar exercício e a oportunidade de me inscrever na Universidade da Terceira Idade surgiu e cá estou, a cumprir horários, mas sem penalizações e obrigações, simplesmente porque quero!

O prazer de alargar horizontes e explorar territórios foram sempre desejos difíceis de realizar, agora tudo é mais fácil e nem as dores ou maleitas nos impedem de passear na companhia do meu parceiro, que adora fazer de guia turístico. Há lugares fantásticos de norte a sul do País, por exemplo, conhecem S.Cucufate no Alentejo, as Aldeias de Xisto e as Aldeias históricas? – pois recomendo!

Mas também, ao sair fora de portas, tenho experienciado momentos únicos, que na juventude tanto sonhava, um dia, conhecer! Este ano foi a vez de viajar pela Croácia, país encantador e povo afável, (embora tenha sido assaltada pela primeira vez na vida em Dubrovnik, mas um pouco por descuido meu… mochila virada para trás e com fecho para cima…), um saltinho até à Bosnia Herzgovina, à cidade de Mostar, ainda com marcas da guerra dos Balcãs, não obstante um centro histórico bem recuperado pela Unesco.

Finalmente, o gosto de cantar foi mais forte e aqui estou eu numa tuna sénior, com mais cinquenta e tal companheiros, a entoar músicas eternas do nosso cancioneiro popular e a sentir-me viva, pensando que os dias são curtos, mesmo muito curtos, porque o tempo voa…!


Crónica publicada na edição impressa de março, do Jornal de Cá

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