(des)amores

João Fróis

O amor tem muitas faces e, de entre todas elas, é o amor entre duas pessoas não familiares que consome e alberga boa parte das nossas viagens interiores nessa busca eterna da felicidade. Seres individuais na procura de um… Opinião de João Fróis

 

Dos mistérios intangíveis desta nossa existência, nenhum nos ocupa tanto como o Amor.

Essa “chama que arde sem se ver”, como Camões ilustrou, é a quimera dos ousados nestes tempos em que nos afogamos na materialidade abundante. Tema de mil poemas, letra de músicas sem fim, está presente na vida de todos nós, desde o leito até à morte.

O amor tem muitas faces e, de entre todas elas, é o amor entre duas pessoas não familiares que consome e alberga boa parte das nossas viagens interiores nessa busca eterna da felicidade. Seres individuais na procura de um parceiro, um companheiro, esse alguém que nos congregue e absolva de todos os males, numa prazerosa redenção afetiva em comunhão de sentidos, unificados num mesmo sentimento comum.

A sociedade evolui a passos largos nos seus modelos de organização, temos conhecido avanços fantásticos na saúde e ciência, na engenharia e comunicações, com bases tecnológicas que se sucedem vertiginosamente. Mas andamos lentamente no que ao amor concerne.

São paradoxos que ainda não se entendem na sua complexidade. A forma como nos damos neste mundo em constante convulsão e mudança, assume um estado líquido, insondável.

Mas há factos que nos obrigam a refletir. Sobre o que somos e para onde estamos a ir enquanto sociedade.

Neste dia comercialmente dedicado a um santo, que nem sabemos se existiu, provavelmente com uma profundidade original ao nível das vestes vermelhas, que uma marca mundial decidiu aplicar a outro santo, Nicolau, mudando-lhe a face, conformada aos modelos de consumo atuais. E que face tem hoje o amor?

Terá muitas e cada um lhe empresta o seu cunho e contributo. Nem sempre luminoso e positivo, como nos lembram os números frios e cortantes da violência no namoro, a crescerem em denúncias em Portugal. E este fenómeno, aparentemente novo, é assaz preocupante. Somos habitualmente confrontados com as estatísticas absurdas da violência no casamento. E face ao aumento de denúncias, o que revela maior coragem e cidadania ativa, fica a sombra negra da brutalidade humana e das suas feias garras a mancharem o que deveria ser belo. Mas se esta violência atroz que tradicionalmente se associa ao casamento ou união entre duas pessoas de género diferente, sendo o homem o ator principal deste filme de terror, vem a lume agora a sua aparição tenebrosa entre jovens em fase de namoro.

Pior é ler e ouvir os testemunhos de jovens que assumem como “normal” vasculharem os smartphones dos parceiros, vigiarem as páginas pessoais nas redes sociais e controlarem os seus contactos e passos. A incredulidade assombra-nos mas ainda não se esgota. A violência verbal é tida como natural e até a física, desde que contida, é entendida com parte do “jogo”… o silêncio compraz-nos perante tamanho absurdo e aberração. Que jovens são estes? Que modelo de sociedade estamos a passar às novas gerações?

De mãos dadas com esta violência entre jovens a descobrirem o (des)amor, anda o bullying nas escolas, em crescendo não só fora mas também dentro das salas de aulas e já com professores como alvos. Que o são perante pais que “exigem” que os seus filhos sejam educados e não julgados. E o fazem de modo violento e desrespeitador para com os professores e a instituição Escola.

Percebe-se aqui boa parte do imenso problema social que temos em mãos. Pais que se demitem de ser educadores, porque não sabem, não querem ou não podem fazê-lo e que entendem que a escola pode e deve substituí-los nesse papel exigente e diário.

Na falta grosseira do bom exemplo em casa, dos ensinamentos essenciais de caráter e respeito pelo próximo e pela sua identidade e espaço, criam-se jovens sem estrutura emocional, moral e ética que consigam inteligir as diferentes componentes sociais em que se movem. Mas mais preocupante é provavelmente sentir que por detrás de toda esta amálgama de vazios e falhas, está a carência de amor. O carinho e afeto diários, a presença real nos momentos do crescimento dos filhos, o suporte e exemplo face às adversidades, são determinantes e fazem toda a diferença na visão que as crianças vão construindo do mundo e dos seus pares.

Crianças entregues a si mesmas irão ser, provavelmente, jovens problemáticos e com dificuldades sérias de relacionamento. Seja com colegas e amigos ou com namorados. E as faltas de auto-estima e amor próprio são aqui fulcrais, na medida em que a “posse” do outro se reveste do papel salvador da suas imensas carências. Tapa-se um vazio com outro. E se pensávamos que com o evoluir da sociedade iríamos assistir a menos fenómenos de violência entre casais, de namorados ou com vínculo, a realidade está aí para nos desmentir.

E no meio de tudo isto onde anda o amor?

Se vemos cada vez mais jovens adultos sozinhos? Por opção ou pela falta dela? E com que estórias e desencantos por detrás? Com separações, divórcios e sofrimento, muitos deles. E com uma fuga para a frente de tantos outros, evitando esses males. Todos temos um percurso e estórias particulares no que ao amor diz respeito. E não há duas iguais, nem tão pouco modelos que se assemelhem na perceção e entendimento do que cada relação é e pode ser.

A complexidade humana atinge aqui patamares elevados. A luta entre hemisférios atinge proporções épicas nos nossos cérebros. Os ouvidos têm de ser sábios a gerir o ruído que outros nos causam com as suas opiniões. E o erro é quase sempre o caminho das pedras, nesta aprendizagem difícil que é amar.

Saber amar passa antes de tudo o mais por nos respeitarmos a nós e aos nossos semelhantes. Fazer valer valores, não cedendo a facilitismos e modas, é trabalho hercúleo mas possível. Defender honra e palavra é imperioso para que a confiança não seja uma palavra vã. E confiar é algo que está a desaparecer nas relações. Mas haverá futuro sem confiança? Entendo que não. Acreditar significa “dar crédito”. Confiar que o outro honrará o que diz e o que faz. Sem essa cola essencial não há ligação que dure e sobreviva às tormentas da desconfiança, do negro ciúme e muito menos da violência da incompreensão. Descendo no abismo a violência verbal e física levam-nos aos infernos, onde se consomem esperança e felicidade em incandescentes lavas de medo e terror.

Voltemos a página.

Acreditar é possível e amar é essencial.

Amar a vida, amar o outro. Dar sem esperar nada em troca. Conceder. Ofertar. Prestar. Sorrir. Apoiar. Confortar. Acalentar. Acarinhar. Abraçar. Amar…

Amemos pois. Em todas as suas faces e formas, os que connosco viajam nesta fantástica e misteriosa aventura que é a vida. Pois sem amor este mundo não é a casa harmoniosa que desejamos. Cada um tem a resposta dentro de si. Façamos de são Valentim um valentão. Na fé, na esperança e na coragem. Na confiança de que vale a pena amar e ser feliz. Todos os dias. Bem hajam!

Pode gostar também


Notice: Undefined index: HTTP_ACCEPT_LANGUAGE in /home/q61q07l4/public_html/jornaldeca.pt/wp-content/plugins/mystat/lib/mystat.class.php on line 1070