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Humanidade “Black”

Opinião de João Fróis

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Hoje é dia de “Black Friday”, um dia que os EUA consagraram aquilo que melhor fazem, consumir despudoradamente tudo e mais que seja sem olhar a meios. Promoções quase pornográficas levaram durante anos milhares de consumidores frenéticos a se lançarem em batalhas campais para tentarem ser os primeiros a conseguir aquele almejado aparelho. Estas imagens aberrantes são o estertor da sociedade de consumo, contrastando com o outro lado do espelho onde vagueiam milhões de sedentos e famintos em busca de “apenas” sobreviver. Este mundo de contrastes absurdos demonstra que pouco ou nada evoluímos enquanto civilização. Continuamos globalmente a ter clivagens sociais gritantes, com índices económicos a anos luz e acesso aos bens primários e essenciais em escalas vergonhosas que nos deveriam a todos fazer parar e agir.

A economia mundial assenta no consumo e com esta premissa se têm cometido as maiores atrocidades imagináveis. Busca cega por recursos não renováveis, destruindo ecossistemas, extinguindo espécies e poluindo os oceanos e ar a níveis absurdos. Em poucas décadas estamos a levar o planeta a níveis de stresse impensáveis e já estamos a pagar o preço com o clima a fazer-nos ver que quem manda não somos nós.

Fala-se hoje de inteligência artificial como algo que nos pode salvar mas, afinal, de quê? De nós mesmos? Da nossa infinita insaciedade e ganância? Ou dos males de não sabermos lidar com os níveis de crescimento populacional e do esforço ciclópico que isso representa para o modelo atual? A verdade é que não vai ser possível sermos mais e querermos alimentar toda a gente. Já hoje milhões padecem de fome, sede e doenças originadas na falta de cuidados de saúde. Mais pessoas, num mundo assente no consumo é avançar em definitivo para o abismo. Não se enganam os que já defendem que estamos já no limiar da sexta grande extinção no planeta. E nós somos os próximos na lista, não tenhamos dúvidas.

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Ainda ontem Madrid estava sob um manto de smog, uma mortalha asfixiante de poluição que quase invisível ao perto é mortífera. Já não é só a China e a Índia a padecerem destes males e estamos todos nesta lista irrespirável.

Não necessitamos de um qualquer robô travestido para nos lembrar que o mundo está a mudar a passos largos e que o trabalho, tal como o concebemos irá escassear para os que ainda se dedicam a tarefas replicáveis e substituíveis por máquinas. Em breve teremos legiões de desocupados e a pergunta é para queijo, o que fazer com tanta gente sem objetivos palpáveis e como assegurar a sua sobrevivência? As respostas estão em cima de mesas que não conhecemos nem tão pouco imaginamos o paradeiro. Mesas onde habitualmente se sentam investidores que apenas procuram uma coisa, lucro! Deixar a estes mesmos “fantasmas” o destino da humanidade, numa era de problemas gigantescos, é anunciar o caos. E esse poderá passar por uma segregação ainda mais forte, assente em vários tipos de muros, onde os que ficam dentro têm acesso ao melhor deste modelo negro e os que ficam de fora se vão chacinar pelas migalhas da indigência. Horrível certo? Mas será irreal? Temo que não. A natureza humana tem-nos demonstrado que cada vez vai valendo mais o egoísmo e que a estupidez cresce como ervas daninhas neste imenso quintal da imundície civilizacional.

O consumo desenfreado é a pior das drogas universais. Não nos mata diretamente mas vai levando, imparavelmente, à morte do planeta. E os viciados somos todos, uns mais do que outros, mas todos temos culpa neste cartório. Eu faço por minimizá-las e hoje, definitivamente, não vou comprar o que quer que seja, numa das milhentas promoções com que nos bombardeiam nos media. O supérfluo não é promoção, é aberração! Bom dia, sem compras.

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