J. P.– O Alfageme do Cartaxo no romance e na realidade

Por Rogério Coito, Historiador

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“Mas porque chamaram ao mestre J.P. o Alfageme do Cartaxo?”

“Chamam-lhe o Alfageme ao mestre J.P.: pois então! Uns senhores de Lisboa que aí estiveram em casa do senhor Dâmaso puseram-lhe esse nome e agora todos lhe chamam o Alfageme. O verdadeiro Alfageme, diz-se que era esparteiro ou armeiro, cutileiro ou coisa que o valha da Ribeira de Santarém, um homem que não queria saber de partidos e dizia Rei que nos enforque e Papa que nos excomungue, nunca há-de faltar. Chamaram-lhe traidor e se não lhe valesse o Condestável Nuno Álvares, ficaria arrasado. Por que lhe chamaram Alfageme? O homem não era assim nem assado. Falava bem, tinha a sua lábia com o povo e fez-se juiz. Pôs as coisas a direito e Deus sabe as que entortou…ganhou nome no povo e agora faz dele o que quer”.
In Viagens na Minha Terra

O mestre J. P. existiu para além do romance de Garrett. Trata-se de Joaquim Pedro, ferreiro, que no século XIX assumiu no Cartaxo o papel de juiz do povo e acérrimo defensor do burgo. As fontes escritas retratam-no muito falador, activo e ladino, dos poucos que então sabiam ler, lançando-se numa campanha em que queria a todo o custo a emancipação política do Cartaxo. Nada subordinado a Santarém, nem deputado que não fosse natural do concelho. Mão amiga fez chegar-nos registos de alguns dados biográficos. Casou em 1817 com Cândida Rosa com quem teve dez filhos o primeiro dos quais, Ana, nascida quatro meses depois do casamento. Diz-se que nas sentenças que proferia, se sentia sempre influência das mulheres e da política. Numa causa que julgou, a parte condenada recorreu e obteve provimento do recurso, depois de ter falecido. Quando o processo baixou da Relação, lançou este despacho: Cumpra-se o douto acórdão, subsistindo porém o meu despacho…

Em 1863, vinte anos depois de Garrett ter escrito as “Viagens na Minha Terra”, ainda o Alfageme arengava pelo Cartaxo. Nesse ano entrou na luta eleitoral onde estavam o cirurgião Melo de Santarém e o proprietário Batalhoz, filho adoptivo do Cartaxo. O Alfageme tomou o partido de Batalhoz, acusando o outro de “estrangeiro”.

Costa Cabral governava o país, a sociedade ia-se modificando, o direito entortava-se por outras vias e aparecia uma aristocracia liberal de barões e viscondes que prosperava. Os juízes do povo que viveram a realidade dos tempos, faziam agora já parte do passado. Do tempo das invasões franceses ainda ecoavam os feitos de arregimentar pessoas contra os invasores, dos editais vociferando contra os roubos do erário público e das casas dos fidalgos emigrados e a bravura das palavras de que Portugal haveria de “desagravar-se”, custasse o que custasse. Que de pouco valeram. Os invasores partiam, mas as malas e as arcas seguiam recheadas.

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