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Motta Cabral, ribatejano, médico e escritor. Uma vida no combate ao sezonismo

Por Rogério Coito

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Francisco da Motta Cabral (1889 – 1959) licenciou-se em medicina beneficiando de uma bolsa de estudo anual de 360 mil réis que o benemérito azambujense Cândido Abreu tinha instituído com um legado testamentário. Filho de António Jacinto Cabral e de Júlia Rosália de Miranda Cabral Abreu, foi médico nos Hospitais Civis de Lisboa, Subdelegado de Saúde em Azambuja fixando residência em Valada em 1939, localidade onde veio a falecer em 23 de Fevereiro de 1959.

Escritor e poeta apaixonado pela festa brava apresentou no 1º Congresso do Ribatejo a tese “Toiradas na Região Ribatejana”. Estreou-se na escrita em 1914 com o livro de poemas “Noite de Sonhos”. Em 1920 surge “Quadros Ribatejanos” e em 1925 aparece um dos seus livros mais fecundos e conhecidos “Ao Sol”. Em 1928 surge “À Vara Larga” onde a temática taurina é largamente desenvolvida. Para além disso escreve em jornais e revistas sendo um dos colaboradores do número especial do “Notícias do Cartaxo” dedicado ao 1º centenário do nascimento de Marcelino Mesquita e delicia-se com a feitura de algumas letras para canções.

Mas a sua grande acção foi sem dúvida no campo da medicina combatendo o sezonismo que grassava nas terras de Valada e Azambuja quando o quinino ainda não era muito divulgado. Conhecida também por paludismo ou malária, as sezões como popularmente a doença infecciosa era conhecida, transmitia-se pela picada do mosquito fêmea anófeles que encontrava nas águas paradas de charcos e pauis, ou nos arrozais sem desinfestação um bom habitat para o seu desenvolvimento. Habitando os moradores muitas vezes em casebres sem condições de higiene e os migrantes em casarões quando em grupos desciam das Beiras e vinham trabalhar para os campos do Ribatejo e que Alves Redol tão bem descreveu no seu livro “Gaibéus”, um marco do Neo-Realismo português, foram as populações rurais desprotegidas e mais pobres as que mais sofreram com estes surtos de endemia. Lembrar quem os ajudou é reavivar contornos de um retrato social de Portugal na primeira metade do século XX.

Rogério Coito escreve de acordo com a antiga ortografia


Crónica publicada na revista DADA, edição impressa nº60

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