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Natal a Servir

Por Vânia Calado

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Antes da menina chegar vinda lá de Lisboa, chegava a mulher de todos os anos. Aquela que amassava as broas e os coscorões que iam à mesa na ceia de Natal e que adoçavam a boca da família. Só da família. Amassava sob o olhar atento da senhora e com a mão pronta da criada para ajudar. Era para trabalhar que ela lá estava.
Miúda delgada que o corpo não conhecia comida que lhe enchesse as peles. Nem no Natal.

A casa esperava a chegada da menina que vinha lá de Lisboa com a família. Eram eles que se lambuzavam com os doces que ela fazia. Ali, durante horas esquecidas. O fogão a lenha aceso o dia todo. O fogareiro a petróleo pronto para os escaldadinhos. O corpo dorido.

Tinha sido a criada da menina que lhe tinha ensinado, mas era a sua mão doceira que encantava a família. A farinha e os ovos perfumados a limão e regados a aguardente. O óleo a borbulhar com o calor do fogareiro e ela ali, agachada, a queimar os braços enquanto virava os fritos. Mais um Natal. Mais um dia de trabalho que o corpo só descansa depois de tudo arrumado e limpo. Voltar ao trabalho antes de perceber que descansou. Quando a senhora tocava à sineta. Sete e meia da manhã em ponto.

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Era preciso estar de olho nas criadas de servir que já se sabe como são.

E ela levantava-se, arrepiada com a corrente de ar frio que chegava lá de fora. Vestia a roupa de trabalho e lá ia. Na cozinha sentia-se o cheiro doce das broas que lhe tinham moído os braços. Ela não lhes tocava. Não tinha autorização para isso. Aquelas eram para a família. São para ela as olhar enquanto serve o jantar. Nada mais.
Quando a menina voltava a Lisboa, a senhora guardava o que sobrava. Broas fechadas à chave no armário da cozinha. Chave guardada onde só a senhora sabia. No próximo ano repetiam tudo e aí, só aí, a criada tinha autorização de tocar nas broas que ajudou a amassar. As do ano anterior, perfumadas a bafio de doze meses e duras da madeira que as guardou.

É a vida das que estão para todo o serviço. Só para o serviço. Até no Natal.

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