O Fecho Laboral

Opinião de José Caria Luís

318

Começava-se então a delinear a classe dos trabalhadores rurais, ainda na categoria de juvenil. Era trabalho indiferenciado? Não, não o era, de todo. Era variado, mas bem digno. Comparando este com o tema dos desclassificados abordado na crónica de novembro, acaba por não ser assim tão mau. Mas, mesmo assim, dá vontade de perguntar: – E, porque não enveredar por outra carreira que não a de agricultor assalariado? Esta ocupação, além de ser desgastante e mal remunerada, também não era lá muito bem vistas no contexto social do concelho.

Diz o Zé Povo que “quem não tem padrinhos, morre mouro”. Só falta dizer que o ditado se refere a Portugal e nunca ao Reino de Marrocos ou à Mauritânia. Esses, por mais ou menos ricos que sejam, morrem sempre mouros. Mas agora estamos a falar de Portugal e, principalmente, do concelho do Cartaxo, onde a realidade era bem diferente.

Os rurais saíam de casa, pela madrugada, com o mal aviado bornal a tiracolo, a caminho das quintas do Atravessado ou dos Lameiros, e voltavam, já noite cerrada, com aquele alforge tão vazio como o estômago de quem o carregava. Quando os locais das fainas se situavam mais a sul, na lezíria, lá pelas quintas das Galochas, Palmeira ou Marquesa, pernoitando em acolchoados térreos, semanas a fio, seria migrar dentro do próprio concelho. Desde andar agarrado às rédeas de uma parelha de éguas, na grade, a alta velocidade, até ao asir da soga de uma junta de bois, a gradar ou a lavrar, de lua a lua, passando pelas mondas e ceifas de trigo, apanha da azeitona ou vindimar, tudo fazia parte da labuta de quem, por azar, inépcia ou vocação, quem sabe, parecia ter o destino traçado. O corpo, esse, não falava mas contorcia-se com dores.

O pagamento por tal esforço, através de uns míseros 12 escudos diários, tinha lugar no fim do dia de cada sábado. E se, para os adultos, estava feita a compensação pelo esforço despendido, para aqueles escravos em miniatura, entre os 11 e os 15 anos, era a triste satisfação do dever (?) cumprido. Com sorte, podiam usufruir da quantia suficiente para, ao domingo, mercar uma laranjada, 5 tostões de amendoins e duas jogatanas numa qualquer mesa de matraquilhos da aldeia. Com 5 escudos fazia-se a festa. Entretanto, os proventos entrados na contabilidade do lar, sabiamente geridos pelas chefias guardiãs do tesouro caseiro, cifravam-se em 67 escudos semanais.

É provável que, se fosse nos dias de hoje, alguma gente mais jovem – aquela que, sem ofício nem benefício, e por via do destino (para quem acredita) se achou implantada neste concelho – não se sentisse minimamente confortável com as condições de antanho, mas essa era a dura realidade de um Mundo que quase chegou a ser perfeito. E se, em tempos remotos, havia carências de toda a espécie; no meu início ainda apanhei laivos de certas dificuldades, mormente por via dos resquícios da II Guerra Mundial. Todavia, a partir de meados dos anos 50, com o incremento verificado em todas as áreas, o cenário das condições de vida das populações melhorou substancialmente. Enquanto isso durou, o Cartaxo foi uma terra rica. Uma terra onde havia de tudo e dava gosto viver.

Crónica publicada na edição de fevereiro do Jornal de Cá.

Pode gostar também