Os beijos dos meus avós

Por Raquel Marques Rodrigues

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No dia 13 de abril celebra-se o dia do beijo, uma data que festeja um dos gestos mais carinhosos do ser humano. Ele está presente nas nossas vidas e representa vários gestos, seja para um simples cumprimento ou um início de uma paixão. Já pensou quanto vale um beijo? Um assunto que abordei numa tarde de primavera, embora com muita chuva, junto de quem tenho uma grande admiração: os idosos.

A conversa inicia logo com um sorriso maroto entre alguns idosos, o que promete um diálogo bem animado. Pergunto: “O que é um beijo?” Todos se manifestam.  “Beijo é uma expressão de afeto”, afirma M. de 93 anos, “é também uma carícia” refere a sra. E. de 85 anos. E por aí adiante. Estava convicta que todos tinham muito a dizer, embora com as diferenças culturais e sociais dos seus tempos para os dias de hoje, os beijos são algo que nunca se esquece.

Ainda se recordam do seu primeiro beijo? Maria, casada há mais de 65 anos, recorda o seu primeiro beijo: “Namorava à janela. O Chico com as suas malandrices chamou-me para ver algo e eu pus a cabeça de fora e já está. Um beijo roubado.” Já a rra. R. (93 anos), viúva há mais de 30, recorda com saudade esses tempos: “Quando ele vinha namorar comigo, eu ia antes de ele chegar à casa de fora (sala de jantar). Eu levantava o espelho para cima, para minha mãe que estava sentada junto ao lume na cozinha a vigiar-me, não nos ver…” Imagino que foi o truque usado, muitas vezes, para trocar muitos beijos entre o casal apaixonado.

No entanto, há quem tivesse que pagar uma multa por ter dado um beijo na face em público, foi o que sucedeu ao sr. A. (92 anos): “Beijei a irmã do meu amigo, na rua, no Rossio. Essa ação custou-me 20 escudos. Nunca contei aos meus pais. Já era militar na altura…”

Confesso que acho um exagero, mas compreendo que as mentalidades eram retrógradas, mas recordo-me que mais exagerado foi o beijo mais longo. Lembram-se? Foi dado em 2013 pelo casal tailandês durante 58 horas, 35 minutos e 58 segundos.

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A tarde promete, não arredam pé da sala para ir lanchar, afinal o tema é do seu domínio e querem provar que foram atrevidos e que tudo davam para reviver esses tempos. Foi o que a sra. Maria recordou: “Uma vez fui apanhar erva para os coelhos. Depois de um beijo, acabei em cima de uma saca…” Risos e gargalhadas entoam naquela tarde cinzenta.

Existem vários tipos de beijo dizem eles: beijos de amor, de amizade, de judas… Uns são repenicados, uns mais tímidos e outros lambuzados. “Oh menina esses não… metem nojo… com a língua…” Desses não gostam! “São beijos modernos”, reforço.

Como todos os avós têm a sua sabedoria popular, os meus idosos residentes não são exceção. Uma idosa embalada neste espírito de partilha solta mais que uma quadra: “Um beijo na testa é honra, na boca é abusar, a menina não consinta, homens na boca beijar.” “Roubei-te um beijo, não digas a ninguém que sou ladrão, eu roubei-te e guardei-te no meu coração.”

Para finalizar, não poderia deixar de ser, um beijo amigo e um abraço bem apertado a cada um.

Para mim os melhores beijos surgem do inesperado. Se me considero uma pessoa beijoqueira? QB. Adoro beijos, é verdade, e dar um beijo é um ato de intimidade mas também de simpatia. Só há um beijo que não quero dar: um beijo de despedida. Esse eu renuncio. Esse beijo intenso, carregado de sentimento espero dá-lo daqui a muitos anos…

De tantos avós que vivo rodeada, algo eles me transmitem nesta matéria, dia a dia, os seus beijos são sinceros e são a prova de amor mais real que cada neto tem.

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