Os Jotas

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Militar numa juventude partidária dá aos jovens uma sensação de pertença. Em idades em que todos nos queremos, de alguma forma, encaixar na sociedade, pertencer a um grupo assume proporções gigantescas. Os jovens gostam, na sua maioria, de ser populares, de ter muitos amigos e de discutir ideias. Mas estes jovens que encontrámos nas juventudes partidárias organizadas no Cartaxo procuram mais que isso: procuram quem tenha ideais semelhantes aos seus e, sobretudo, procuram fazer a diferença.

Foto – em cima da esquerda para a direita: Bruno Galaio, Margarida Rodrigues, João Oliveira, Ana Pintor e João Pato. Em baixo da esquerda para a direita: Maria Beatriz, Pedro Caria, Carolina Simões e Diogo Martins. À direita: Cláudia Varandas e Madalena Formigo

Com idades entre os 15 e os 26 anos, as motivações que os levaram a entrar na militância ativa são diversas.

Ana Maria Pintor, 26 anos, militante na JSD desde 2009, recusa a influência familiar na sua decisão. “Os meus pais e avós não estavam ligados ao partido. Eu fui a primeira a tomar a decisão de me ligar a um partido político. Nunca houve, em casa, tendências. Discutia-se política, como em todas as casas, julgo eu”, refere, ao mesmo tempo que explica que “a nível de orientações, de ideias e de tudo o resto, foi ali que eu me identifiquei. O PSD tem muita ligação à Igreja Católica. A proximidade, a solidariedade, o ajudar os outros, e eu identifico-me, como católica e praticante, com essa base do partido”.

Já João Pato, estudante de apenas 15 anos, diz que as conversas em casa foram determinantes e que “apesar de ter uma longa história familiar no PSD, não houve qualquer pressão para eu entrar, foi uma decisão minha, natural. Quis entrar para ter um papel mais ativo na política local e para também perceber como é que as coisas funcionam”.

A militar na JSD há cinco anos, Maria Margarida Rodrigues, de 21 anos, ‘aponta o dedo’ a Pedro Pato como o ‘culpado’ pela sua militância, embora o pai já tenha sido militante do PSD. “Entrei para a JSD por questões de valores. Cheguei à conclusão que os valores do PSD, e principalmente da Jota, visto que é virada para os jovens, eram os valores que me acompanhavam desde sempre: justiça, equidade”.

A JSD ou qualquer juventude partidária não é uma escada, é um sítio onde nós podemos mostrar o valor que temos.  João Oliveira

João Oliveira, o líder da JSD do Cartaxo, de 26 anos, provém de uma família socialista, mas isso não o impediu de seguir os seus ideais políticos. Diz ter começado a despertar para a política muito cedo, por volta dos 13 ou 14 anos, altura em que começou a construir os seus ideais.

“Optei pelo PSD porque, do ponto de vista político, é um partido que abrange uma larga escala de pensamento, dentro do PSD temos pessoas de centro-esquerda e temos pessoas mais liberais. O Partido Socialista é um partido mais vincado à esquerda, no máximo centro-esquerda, não abrange, por exemplo, do ponto de vista das políticas económicas, esses ideais. Do ponto de vista social, se calhar, considero-me mais à esquerda, acho que é importante o Estado ter um papel de salvaguarda no acesso às oportunidades a todas as pessoas, mas do ponto de vista económico acredito na iniciativa privada, sempre com um teor elevado de regulação por parte do Estado, mas um Estado não-interventivo nesse setor, e aí distancio-me bastante do Partido Socialista”, explica.

Já Bruno Galaio, de 20 anos, militante há apenas oito meses, chegou à JSD de outra forma. “Cheguei à JSD a partir do CMJ (Conselho Municipal de Juventude). Já tinha ideias muito fortes ligadas à direita, porque em casa sempre se geraram muitas discussões sobre política e sobre tudo o que se passava”. Mas Bruno Galaio não é o primeiro militante da família. “O meu avô, salvo erro, era militante do Partido Comunista Português e, de todos, era o defensor mais fervoroso do Partido Comunista”.

Quanto às razões por ter optado pela JSD, Bruno Galaio salienta que, “a nível local, nós temos quase como uma dinastia de PS e acho que não nos podemos queixar sem sermos proativos. Eu acho que a direita passa pela iniciativa privada, pela liberalização, não digo total, mas regulada dos mercados e da iniciativa privada. Daí o PSD e a JSD. A social-democracia tem uma coisa que eu acho que é comum e não pode ser negada: os mecanismos de defesa social, porque eles existem e, para além disso, é a meritocracia”.

Três dos elementos da JS entraram na estrutura ao mesmo tempo: Diogo Martins, Pedro Caria e Carolina Simões, atualmente todos com 20 anos.

Amigos dos tempos da Escola Secundária, o que os levou à JS foi “o interesse em procurar uma juventude partidária, não só pelo despertar do interesse na política, mas também pelo associativismo e o sentido de dever, de poder ajudar ou contribuir em alguma coisa para o Cartaxo, para a minha terra”, resume Pedro Caria. Além disso, era chegada a hora de exercer o direito de voto. “Comecei a perceber que era importante começar a pesquisar em quem é que eu ia votar, porque era um marco muito importante, era uma coisa por que eu estava bastante ansiosa”, conta Carolina Simões. A escolha recaiu na JS, por questões “como a adoção de crianças por casais homossexuais ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo”, que apelaram a Carolina Simões.

No caso de Madalena Formigo, 17 anos, militante da JCP, o despertar para a política deu-se por volta dos 13 anos, quando percebeu que “tudo o que se passa ao nosso redor é um pouco política, há política por todo o lado, em cada decisão que tomamos”. Foi a altura em que começou a querer saber mais, “começamos a questionar as coisas e a concordar mais com um lado que com outro”. Militante há pouco mais de um ano, Madalena considera que a JCP “é a única juventude partidária que luta por uma escola gratuita e de qualidade. Somos os únicos, do meu ponto de vista, que nos interessamos realmente pelos problemas com que os jovens se deparam hoje em dia” e garante acreditar numa “sociedade em que não há o opressor e o oprimido. Acredito que toda a gente trabalha e ninguém deve ser explorado. É tudo muito mais justo e eu acredito que uma sociedade assim é possível”.

Também Cláudia Varandas, 21 anos, coordenadora da JCP distrital de Santarém, concorda que o despertar se deu aquando da perceção de alguns problemas diários, e acrescenta que o primeiro contacto com a JCP foi “à porta da minha escola, porque eu sentia os problemas, eles tocaram-me na ferida”.

Referências
Independentemente de militarmos ou não numa estrutura partidária, todos nós temos referências de homens e mulheres que, de alguma forma, nos inspiram a seguir o seu modelo. E o mesmo acontece com (quase) todos estes jovens.

Nomes como Pedro Passos Coelho e Francisco Sá Carneiro são referências comuns a quase todos os jovens militantes da JSD com quem falámos, mas também surgem menções a autarcas, como Rui Rio, a conseguir a preferência de João Oliveira e Bruno Galaio, Ribau Esteves ou Isaura Morais. Winston Churchill e Nelson Mandela são outros nomes citados.

Nos jovens socialistas, António Guterres faz o pleno, mas também nomes como Mário Soares, Álvaro Cunhal, Francisco Sá Carneiro, Renato Campos ou Pedro Ribeiro reúnem bastante consenso.

Para Madalena Formigo Karl Marx é um exemplo a seguir, bem como Lenine. Mas “não vou falar no camarada X ou no camarada Y porque nós somos um coletivo e estamos todos a lutar pela mesma causa e acho que todos merecemos o mesmo mérito”, acrescenta.

Cláudia Varandas é mais abrangente e salienta que “todas as referências que eu tenho são todos os camaradas com quem eu faço a minha atividade e troco opiniões. Funcionamos como um coletivo, as minhas referências são o que o meu coletivo me transmite. Eu podia dizer que é o Álvaro Cunhal, e sem dúvida que é uma das minhas referências. Mas eu tenho uma referência muito vasta”.

Olhar o Cartaxo
“A direita faz falta à esquerda como a esquerda faz falta à direita. Precisam é de um filtro”, começa por dizer Bruno Galaio, acrescentando aquele que julga ser o desafio do futuro: “acho que os políticos do futuro têm de ser permeáveis às ideias uns dos outros, e acho que isso é um desafio, não só da esquerda e da direita, mas da política nacional e mundial”. Aliás, Ana Maria Pintor refere mesmo que “temos é de ser coerentes e avaliar qual é que é o melhor caminho, independentemente, muitas das vezes, das ideologias que nos regem”. João Oliveira defende que existem diferenças na forma de exercer o poder. “Tanto o PS como o PSD adotam um modelo de economia social de mercado com algumas diferenças, sobretudo na intervenção do Estado na economia”.

Não obstante, parece ser nesta dicotomia que assenta a visão de cada um destes jovens do concelho do Cartaxo.

Assim, a JSD não tem dúvidas de que falta investimento no turismo rural na Capital do Vinho e “principalmente na agricultura”, aponta Bruno Galaio. João Oliveira acrescenta que “acabámos por ficar um bocadinho parados no tempo” e que “acabou por se decidir, do ponto de vista político, investir num conjunto de obras que não eram essenciais para o concelho, do ponto de vista económico, de atração de empresas e de emprego, e acabou por se adotar uma estratégia cacique, de manutenção de poder, de subsidiar de uma forma bastante avultada as associações, acabando por dar o peixe e não dar a cana a essas associações para elas pescarem, e agora vê-se os problemas que existem”.

A nossa geração já nasceu depois do 25 de Abril, por isso está muito afastada da
política. Não precisou de lutar por nada
para ter o que tem. Diogo Martins

Para Diogo Martins, “a desertificação do Cartaxo tem a ver com o estímulo à economia local. E se nós passarmos pela Rua Batalhoz verificamos que não houve grande evolução. Não é uma crítica aos comerciantes, mas temos de perceber que tem de haver uma adaptação, as coisas não podem estagnar no tempo. E isto é tudo uma bola de neve”.

Já Pedro Caria considera que os cartaxeiros têm culpas nesta situação, já que “desde ir às compras até sair, passear, as pessoas pouco ou nada ficam por aqui, as pessoas querem ir às compras vão a Lisboa, querem sair vão a Lisboa, passear vão a Lisboa”.

A falta de transportes públicos ou o estado das estradas são apontados negativamente por Madalena Formigo, que refere que “o concelho está abandonado. Tento sempre estar informada sobre a situação do concelho e não tenho elogios a dar à Câmara Municipal”. Além disso, “para o concelho que é, somos das câmaras mais endividadas do País e isso é muito triste, porque é um concelho pequeno e não devia estar nem de perto nessa situação. É um concelho que devia ser muito melhor gerido e não é”.

Ficar ou sair?
Maria Beatriz é militante da JS e tem apenas 17 anos. Estudante do ensino secundário, quer estudar Direito e “ficar cá” no Cartaxo, onde pretende ter sucesso pessoal e profissional.

Apesar de o grande sonho de Ana Maria Pintor ser “poder formar uma empresa e instalar-me no concelho do Cartaxo”, esta jovem admite que esta possibilidade “é um pau de dois bicos. Eu tenho vontade de cá ficar, é óbvio. Visto que é um concelho rural, visto que eu estudei agricultura, mas quero adquirir experiência noutro lado antes de investir naquilo que é meu”. Ainda que tenha estas dúvidas, “vejo-me a lutar pelo Cartaxo a nível político, porque não faz parte de mim baixar os braços. Quer profissionalmente quer politicamente é cá”, garante.

Margarida Rodrigues sabe que “tenho cá sempre o meu lugar, mas quero, antes de ficar aqui, ganhar experiência. Mas aquilo que eu queria, sinceramente, era fazer uma carreira internacional”, confessa.

João Pato, apesar da tenra idade, assegura que “gostava de cá ficar, a lutar por melhorar isto. As pessoas têm é de abstrair-se um pouco dos partidarismos e pensar no que é melhor para o Cartaxo, unir esforços”.

O Cartaxo não é muito convidativo para jovens empreendedores, considera Bruno Galaio, “principalmente se for com capital próprio”. Ainda assim, “a nível político, obviamente que tenho todo o gosto, até porque gosto bastante da minha terra, acredito que o Cartaxo é um concelho com bastante potencial. Acho que qualquer um de nós, politicamente, quer ficar cá. Pessoalmente é mais difícil, porque nós, jovens, e principalmente os que vão estudar para fora, notam uma diferença”.

A trabalhar fora, João Oliveira assume a ambição de regressar, “porque esta é a minha terra. E independentemente do estado em que ela se encontra e de acabarmos por perder, se calhar, não o orgulho de termos aqui nascido, mas o orgulho pelo estado em que ela se encontra, gosto e acredito que é possível dar a volta, com criatividade, com esforço, com vontade, com a capacidade de quebrar um conjunto de vícios existentes na estrutura que governa”.

“Eu prefiro ficar cá”, assegura Carolina Simões, e de “participar ativamente, de contribuir, porque acho que nós, enquanto JS, também temos uma palavra a dizer, porque estamos a representar os jovens, e eu queria contribuir ativamente para aquilo que é o dia a dia dos jovens no meu concelho, através da Câmara Municipal, da Junta de Freguesia, da Assembleia de Freguesia”.

Tudo o que se passa ao nosso redor é um pouco política, há
política por todo o lado, em cada decisão que tomamos. Madalena Formigo

Apesar de querer seguir Música, Madalena Formigo salienta que “quero continuar ligada à política, porque só estou bem comigo própria sabendo que estou ativa numa causa em que acredito”. Até porque “acho que nós temos realmente influência, porque a verdade é que se nós lutarmos e mexermos as massas, conseguimos resultados e fazer com que as pessoas questionem e fiquem mais esclarecidas e, às vezes, até conseguimos resolver alguns problemas”, acrescenta.

Salientando que “a JSD ou qualquer juventude partidária não é uma escada, é um sítio onde nós podemos mostrar o valor que temos”, João Oliveira declara-se apaixonado pelo poder local. “Terei todo o gosto em dar o meu contributo, a ser, por exemplo, quem sabe, presidente da concelhia. Tenho um grande fascínio pelo poder local, gostava de ser presidente de Câmara, era uma coisa que me enchia de motivação e de orgulho, porque realmente gosto do Cartaxo, gosto desta terra. Não tenho uma ambição completamente definida, mas tenho o objetivo de ter sempre algo mais”.

Bruno Galaio e Ana Maria Pintor não enjeitam a possibilidade de virem a liderar as respetivas Juntas de Freguesia. Bruno, a de Pontével, Ana, a União de Freguesias Ereira/Lapa, ao passo que Margarida Rodrigues garante preferir ficar na sombra, ou seja, trabalhar em prol do concelho, mas num lugar com menor visibilidade.

Já João Pato, ponderado, declara que “para já, ainda não, ainda é cedo” para falar de ambições políticas.

Causas
O trabalho das juventudes partidárias passa, na grande maioria das vezes, por temas que não são (muito) discutidos dentro dos partidos. É a irreverência da juventude que os leva a discutir assuntos como a necessidade de criação de parques caninos ou trilhos para Geocaching, a legalização das drogas leves e da prostituição, a eutanásia, as touradas ou os direitos dos animais, a falta de condições nas escolas, a qualidade da comida nas cantinas…

São temas que deveriam interessar os jovens mas que, afinal, parecem passar ao lado de muitos. É por isso que falta “formação cívica na escola, para os jovens se consciencializarem”, diz Diogo Martins, porque “a nossa geração já nasceu depois do 25 de Abril, por isso está muito afastada da política. Não precisou de lutar por nada para ter o que tem. E isto é o ponto fulcral, e temos de fazer aqui algum trabalho a nível das escolas”.

A isto junta-se a descrença nos políticos, e depois, “o que acontece é que as pessoas fazem 18 anos e chega a hora de votar e, ou não votam, ou votam naquele que o pai e a mãe acham”, lamenta Pedro Caria, que acrescenta que “há uma preguiça cívica, se assim lhe podemos chamar. As pessoas dão a desculpa que os políticos são corruptos. As pessoas não querem saber e depois, qualquer desculpa, para mostrar que não está bom, é que eles são todos iguais”.

Madalena Formigo vai votar, este ano, pela primeira vez. Ao contrário de tantos e tantos jovens, está ansiosa pelo momento. “A sensação é boa, porque já quero votar há muito tempo. Considero que todas as eleições são importantes. Agora, acho que num País onde há muita abstenção, realmente é importante apelarmos ao voto, e não podemos lembrar-nos disso só na véspera”, finaliza.


Reportagem publicada na Revista DADA nº66, fevereiro/ março 2017