Os (mal) Selecionados

Opinião de José Caria Luís

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No que concerne a emprego jovem, o leque de atividades no Cartaxo teve um período que, não sendo de abundância, chegou a ser razoavelmente fértil. E se aos primeiros, à malta da ferrugem, valeram o “Jorge Honório”; “Ernesto Batista”; “Cruz & Jarego” e o “Augusto Mendes do Santos”, entre outros, os tubistas estavam sob a égide do “Júlio Dimas” ou do “João Pequeno”, estando os faíscas ligados, na sua maioria, à Câmara Municipal, debaixo da alçada do encarregado José Júlio. Eram os filhos Vítor e Fernando Afoito, e os Lambérias, pai e filho. Alguns deles, ainda que ligados à C.M.C., cultivavam uma espécie de microempresa de instalações elétricas, que, nos tempos livres, biscatava pelas obras do concelho. Também o Manuel dos Santos e o Alfredo Madruga laboravam nesta área, ainda que pouco empregadores no que à rapaziada dizia respeito. Os jovens balconistas estavam distribuídos pelo Manuel d’Água; Soeiro; Catela; João Leitão; Dias & Dias; Abel Vieira; Brincheiro e António Guilherme. Porém, os estratos laborais não se quedavam por aqui. Se bem que um furo abaixo dos anteriores, ainda havia pessoas cujos modos de vida e sustento dependiam dos empregadores nas áreas dos canteiros, marceneiros, serradores, carpinteiros e pedreiros. Eram eles: “Mármores Fonseca”; “Zé Pego”; “Zé do Carmo”; “Galiza”; “Periquito”; “Paixão”; “Cassapo”; “Joaquim Filipe”; “Dias & Dias”; “Sicosel”; “Sérgio Marques”; “António Fidalgo”; “Manuel Barroca; “Joaquim Franco”; “Pego & Barroca” e “Manuel Pato”.
Entendo, e aceito, que alguns dos colegas que caíram nesta área, tenham rogado uns chorrilhos de pragas à má sorte que sobre eles se abateu, mas cuidado, porque atrás viria quem muito lhes ensinaria. Isto, no sentido figurado, já se vê. Não vou recorrer ao desplante de dizer que estes fulanos deviam erguer as mãos aos céus e agradecer a Deus pela graça concedida, mas ficassem os mesmos sabendo que ainda havia pior, muito pior.
O destino dos frustrados que foram empurrados para este último estrato laboral, tanto na serventia da construção civil, como na agricultura, já se tornara uma tradição no concelho. E ao mesmo tempo que estes se acomodavam devido à natural falta de perspetivas de evolução na carreira, os primeiros aspiravam a chegar à aprendizagem da arte de pedreiro ou carpinteiro. A estes rapazes faltava cumprir uns anitos de estágio, passando debaixo de uns milhares de gamelas de argamassa à cabeça, e de alguns camiões de tijolo às costas, para ganharem aptidões (mais corporais que etárias) que lhes dessem créditos, de modo a que um dia pudessem fugir à pá e picareta, entrando na aprendizagem da arte. Se todos os outros já tinham o seu ramo… Ainda que não lhes tivesse sido atribuído um ramo sobre o qual pudessem poisar, estes rapazes indiferenciados (no início todos o eram), que, por azar, inépcia e ausência de vocação, pareciam talhados a ficar eternamente a Leste do Paraíso. Se todos precisavam de trabalho e, na época, isso era coisa que não faltava, então arregaçavam-se as mangas e vamos ao trabalho. Era aproveitar, porque muito pior estaria para vir.

 

Crónica publicada na edição de janeiro do Jornal de Cá.

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