Os ‘senadores’ da Horta

Por António Franco

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31/12/79 – Dia da inauguração Este dia foi tão atribulado que se tornou inesquecível. O espumante comprado na Futural estava há tanto tempo em armazém que só a saca-rolhas podia ser aberto. Um indivíduo a quem tinha sido barrada a entrada fez questão de marcar esta noite de Passagem do Ano com um pontapé que deitou a porta da discoteca abaixo. A casa estava completamente cheia e o amplificador resolveu rebentar com as colunas. Problema que foi solucionado com o empréstimo de uma aparelhagem particular. Nesse tempo não existiam aparelhagens profissionais, as colunas eram compradas na Rua dos Fanqueiros e por nós montadas todas as semanas. Até o amplificador era mais potente do que as colunas. Quanto às luzes nem se fala, as lâmpadas que existiam na altura nem efeitos faziam. Foi uma noite para sempre recordar. Uma curiosidade: o indivíduo que deu o pontapé na porta e a deitou abaixo veio a trabalhar connosco no fim de semana seguinte.

Vanália – a escola de hotelaria do Cartaxo A Vanália era, e ainda é, um local de referência no Cartaxo. Os cartaxeiros devem orgulhar-se de tal estabelecimento. Foi a grande escola de hotelaria da nossa região. Muitos jovens fizeram lá a sua aprendizagem e foi dali que se formaram muitos empresários da restauração. Acrescente-se, igualmente, à época, o Pelé. São inesquecíveis os famosos bifes às duas da manhã no privado da Vanália. Bons tempos. António Leal foi um grande profissional e o pai desta grande escola de grandes profissionais. E foi lá, à Vanália, que fomos buscar o tal indivíduo que na inauguração havia feito os desacatos. “Se não podes com eles, junta-te a eles”.

Anos 70 Abríamos às dez e encerrávamos às quatro da manhã. Sextas, sábados e vésperas de feriados. Nos feriados e aos domingos, a matiné. Nas noites mais fracas, especialmente às sextas, quando não havia festas, as noites eram convidativas para uma música mais baixa e calma. Eram as noites de grande convívio. As pessoas de mais idade e de diferentes setores de atividade juntavam-se, e era frequente as pessoas usarem o local para trocarem opiniões acerca dos seus vários projetos. Ainda me lembro do Dr. Bastos de Sousa projetar as futuras instalações da Asal, do Dr. Santos Rosa e do seu trabalho na parte vitivinícola. As noites eram sempre muito animadas e, bebendo mais um copo, a abertura das pessoas também era outra, levando, por vezes, a confidências que em outros locais não teriam existido.

Os barmen de serviço João Anacleto, João Sardinha, António Franco e Luís Filipe. Por vezes, eram poucos para tanto trabalho. Chegámos a ter à volta de 400 garrafas de clientes. Há uma estória engraçada que vale a pena contar.

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Havia um cliente que, de vez em quando, não pagava a sua garrafa, ficando de a liquidar no fim de semana seguinte. Quando alguém batia à porta (o bar era em frente à porta) corríamos todos para junto da caixa, pois esse cliente, ao pagar, dava sempre uma grande gorjeta ao barman. Esse gorja era muito para a época e as cotoveladas eram evidentes.

Os ‘Senadores’ da Horta Ao Dr. Bastos de Sousa, ao Dr. António Fonseca, ao Dr. João Mateus Rosa, ao João Manuel Anacleto, ao Sr. Vieira Dias e ao Sr. Nuno Varandas, a nossa gratidão.

Sem eles, sem estes seus «senadores», a Horta não teria sobrevivido, pois foram estas pessoas, com a sua posição social e a sua credibilidade, que fizeram com que a casa tomasse nome e tivesse tido o êxito que teve na altura. A nossa homenagem a estes homens que já nos deixaram.

“Todos somos ignorantes, o que acontece é que nem todos ignoramos as mesmas coisas.” (Albert Einstein)

O caráter de um ser humano é algo que, por vezes, me deixa perplexo. A ganância pela riqueza é, por vezes, apanágio de quem apenas herdou, de quem nada construiu, mas que gere com uma destreza cega perante as dificuldades dos outros. Confesso que me foi difícil dizer adeus a uma vida de trabalho, mas as circunstâncias assim o ditaram. A senhoria, que desprezou durante quatro décadas as suas obrigações legais de manutenção do edifício, suponho eu que deve ter poupado o suficiente para agora poder fazer as obras em falta que nos obrigaram à despedida. Seria tão bom que todos fossemos cumpridores.

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