Perfil – David Lobato

David Lobato, 44 anos, comandante dos Bombeiros Municipais do Cartaxo. Casado com a Filipa e pai do Rodrigo. Vive no Cartaxo.

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Eu sou
Acho que sou simpático, ambicioso, no bom sentido, sou amigo do meu amigo, sou capaz de despir a camisa para dar a um amigo, sou verdadeiro mas um bocado de extremos, quando não gosto, não gosto mesmo. Sou bem-humorado, de fácil trato. Sou um bocado camaleão, adapto-me bem às situações.

Texto publicado na edição impressa nº53 da Revista DADA, de dezembro de 2014.

Para início de conversa, David Lobato, comandante dos Bombeiros Municipais do Cartaxo, faz questão de explicar que é comandante em substituição por ainda não ter havido nomeação para o cargo. Por nomeação é 2º comandante. Feito o esclarecimento fique-se a saber que o “nosso comandante” nasceu em Alcoentre, há 41 anos, e deixa perceber de imediato que é uma pessoa bem-humorada. Explica que nasceu em casa porque a mãe tinha medo que o roubassem do hospital. Começa aqui a ver-se o sorriso que não mais o largará até ao final da entrevista. Aos Bombeiros leva a dedicação de uma vida. Começou a frequentar o quartel dos Voluntários de Alcoentre pela mão do pai, e aos 14 anos já era bombeiro. Esteve lá até 1994, durante os anos em que fez o ensino secundário nas Caldas da Rainha. Foi aí que conheceu Filipa, a gestora de seguros com quem hoje está casado e que na época também era bombeira e participava na banda da corporação. Quisemos saber qual a motivação de um jovem para querer abraçar esta profissão.

Eu quero
Quando me reformar ir viver para junto do mar. Dar tudo o que possa ao meu filho e proporcionar-lhe uma vida confortável. Continuar a colocar os Bombeiros do Cartaxo no patamar em que estão e merecem. Quero muito que o nosso país volte a ser um país.

“Eu só por volta dos 19 anos é que pensei profissionalizar-me. Antes disso a influência era o meu pai e também o facto de Alcoentre ser uma terra pequena e o trabalho nos bombeiros ser um escape”, explica-nos. David Lobato teve uma infância feliz com os pais e uma irmã, sobretudo quando a família morou no bairro destinado aos funcionários da cadeia de Vale de Judeus onde o pai trabalhava. “Tive uma infância de bairro, cheia de brincadeiras e amigos,” lembra.“ Depois mudámos para uma aldeia, para uma casa que o meu pai construiu e passei a ficar mais sozinho, mas com outras distrações e sempre muito feliz”.

 

Eu gosto Muito da minha família, do meu país, do Cartaxo, adaptei-me e considero-me cartaxeiro. Gosto dos cartaxeiros. De praia, de viajar em Portugal. De boa mesa e de um bom vinho, considero que os vinhos do Cartaxo estão entre os melhores do mundo. Gosto do meu espaço, mas também de sair à noite, com moderação. Gosto muito de jantar com amigos.


Quando concorre à vaga nos bombeiros Municipais do Cartaxo, David Lobato já estava casado e o filho Rodrigo ia entrar no ensino preparatório.

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Eu não sou
Hipócrita. Nem mentiroso nem antipático. Não sou muito guloso. Não sou vaidoso nem interesseiro. Não sou desleal por ser absolutamente incapaz de o ser.

Era a altura certa para a família mudar. Nessa época, empenhado no sucesso na carreira, volta a estudar e tira uma licenciatura em Higiene e Segurança no Trabalho. Agora, ao fim de todos estes anos, o comandante Lobato tem as ideias bem arrumadas sobre a sua profissão. Primeiro agrada-lhe o facto de não haver rotinas “Aqui todos os dias são diferentes. Nunca sabemos o que vai ser o nosso dia”. E medo? Não há medo? “Há respeito, mas sobretudo há muita adrenalina” confessa, lembrando como episódio marcante o dia em que ele e um grupo ficaram cercados num incêndio florestal perto de Tomar: “O que nos salvou foi um batatal onde ficámos cerca de uma hora”. Lúcido, David Lobato entende que em Portugal “não há uma cultura de segurança” e que esse facto está na base do exagerado número de fogos florestais que sofremos.

Eu não gosto
De viajar para destinos longínquos, não gosto de aviões. De multidões. De pescada cozida, nem vê-la. Não gosto de pessoas falsas.

“A nossa floresta é dinamite. Falha a prevenção, a reflorestação, o ordenamento do território e os últimos da linha são os bombeiros, que não podem arcar com a responsabilidade”, afirma. Lutando contra as desigualdades entre bombeiros Voluntários (que recebem verbas do Governo) e os municipais sustentados pelas Câmaras, David Lobato somou recentemente uma vitória com a aprovação camarária do quadro de pessoal dos bombeiros. Um instrumento precioso, garante, a que se junta “o enorme esforço que a Câmara faz para manter os bombeiros operacionais“. E nota-se o orgulho na voz quando, sempre com o seu sorriso no rosto, nos confessa considerar “o corpo de Bombeiros do Cartaxo um dos melhores do distrito e talvez dos melhores a nível nacional”. E remata: “se depender de nós as pessoas podem dormir descansadas”.

Eu não quero Deixar de ser a pessoa que sou. Que Portugal continue a ser o que está a ser neste momento. Não quero que os Bombeiros sejam referenciados e lembrados só quando as pessoas precisam.

Texto publicado na edição impressa nº53 da Revista DADA, de dezembro de 2014.

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