Perfil – Rolando Ferreira

44 anos, músico e professor, casado com a Liliana, pai do Bruno e do Afonso. Vive no Cartaxo

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Texto publicado na edição impressa da Revista DADA nº50 de junho de 2014

Eu sou
Trabalhador, profissional. Calmo e reservado. Sou exigente, um bocadinho teimoso e tímido nalgumas coisas. Benfiquista, não sou fanático mas sou de alma e coração.

Nasceu no Cartaxo e a música surgiu na sua vida logo na escola primária. A música e a vontade de ensinar. Sentado na sala da escola José Tagarro a ver a sua professora de música, pensava que era aquilo que um dia queria fazer. Desafiado por dois companheiros foi ter às aulas da Sociedade Filarmónica. “O Alexandre Vilela e o Pedro Florindo tinham aulas lá e desafiaram-me. A partir daí seguimos sempre juntos a estudar” recorda. Começou por tocar clavicórnio, depois passou para o bombardino e, mais tarde, optou pelo trombone de varas. “Quando comecei a estudar música a sério tive de escolher e o trombone era o que melhor se adaptava às minhas características físicas”.

Eu gosto
Da minha família. Da minha profissão. Gosto de música, de dirigir bandas. Nas comidas gosto de marisco, coca-cola. Praia e campo. Gosto de silêncio, depois de ensaiar uma banda, por exemplo, o silêncio faz-nos falta. De estar com os amigos. Pessoas honestas e verdadeiras.

Esta é a rampa de lançamento para ir para Lisboa estudar na Escola de Música do Conservatório Nacional. Ser músico já era uma hipótese na sua vida mas ainda não pensava se seria uma escolha com saídas profissionais. “Nunca pensei que a vida de músico fosse difícil. Não se pensava nisso. Nessa altura tinha 14, 15 anos e não pensava assim no futuro. Fazer ou não fazer carreira não era uma preocupação. Fazia o que gostava”. Apesar de gostar do que fazia as coisas não foram fáceis para Rolando Ferreira. “A minha família não era rica e eu para estudar em Lisboa tive de trabalhar. Íamos duas vezes por semana ter aulas e nos outros dias ia trabalhar. Estudava à noite e sempre trabalhei para pagar os estudos”, recorda. A possibilidade de ser professor surgiu-lhe quando no Jardim de Infância do Cartaxo “o sr. Paínho pensou dar aulas de música a todas as crianças. Tive um convite para ir para o JIC dar aulas e comecei a gostar de ensinar. Nessa altura percebi também que não se consegue viver com o que se ganha como músico”. Em 1998 abriram-se-lhe as portas do ensino oficial. Por concurso foi colocado na escola de Manique, no ano a seguir Porto Alto e depois na José Tagarro onde cumpre o sonho de criança de ser professor na sala onde começou a aprender música.

Eu quero
Ter saúde. Ter trabalho. Ter amigos verdadeiros. Paz no mundo, paz nas pessoas. Alegria.

O casamento, no ano 2000, traz-lhe novas responsabilidades à vida. Rolando e Liliana conheceram-se na banda da Ereira, onde ela tocava saxofone. Pormenor importante para a vida de um músico: casar com alguém que conhece as exigências da profissão. Nessa época é desafiado para uma nova etapa. Um convite do professor Délio Gonçalves leva-o à direção da Banda do Sagrado Coração de Jesus e Maria, de Chãs, em Leiria. “Estou lá há 14 anos. E é uma banda que me dá uma grande satisfação. Tem 45 elementos e é mantida por pessoas que têm um carinho especial pelo que fazem.” conta-nos.

Eu não sou
Interesseiro nem egoísta, nem antipático.

Rolando, que atualmente dirige igualmente a banda da Azambuja, também se empenha neste projeto. Em 2004, quando nasceu o seu primeiro filho, Bruno, era em Chãs que estava a trabalhar e de onde teve de vir a correr para chegar meia hora antes do parto. Cinco anos mais tarde nasceu o segundo filho, Afonso.

Eu não gosto
De vinho tinto. De pessoas falsas. De muita chuva. De acordar muito cedo.

Em 2012, alterações no esquema de ensino oficial, levaram-no a não conseguir colocação. “As AEC (atividades extra curriculares) passaram para a competência da Câmara Municipal. Resolvi concorrer e consegui entrar. Temos a sorte de ter uma grande coordenadora, a Carla Neves, que percebe que não consigo estar só numa sala de aulas e não fazer mais nada. Tenho de desafiar os miúdos. Portanto, partimos para espetáculos nos quais lhes consigo incutir o espírito de trabalho. Agora estamos a ensaiar uma marcha para apresentar em junho, aqui no Cartaxo, nos Santos Populares” revela.

Eu não quero
Ficar sem trabalho. Ficar sem saúde. Que as pessoas andem tristes. Que briguem. Não quero brigas. Não quero tristezas.

O que Rolando não é mesmo capaz é de imaginar a sua vida sem a música. E um pouco também sem ensinar. “É verdade, não vejo a minha vida sem música – Há uma coisa que me assusta profundamente: ficar sem trabalho e vir a ter que fazer outra coisa. Ver a minha vida sem música é ver acabar um pouco de mim. E mesmo o deixar de dar aulas é uma coisa que me é difícil aceitar”.

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