Uma Feira dos Diabos (I)

Opinião de José Caria Luís

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Naquele ano, em meados da década de 50 do séc. XX, a Feira do Cartaxo, contrariando o propósito de honrar e fazer jus ao pomposo e solene título de Feira de Todos os Santos, tal como lhe fora conferido pelos seus fundadores, no longínquo séc. XVII, acabava, agora, de sentir a torpe ameaça de ser bruscamente apelidada de “Uma Feira dos Diabos”.

De facto, analisando friamente as rocambolescas peripécias ocorridas no recinto da feira, e pese embora o mediano grau de gravidade de que se revestiram algumas situações, também não foi nenhuma catástrofe que se abateu sobre o evento que justificasse tal radicalização… Todavia, não fora a tenacidade e o bairrismo do cartaxeiro comum, ao não permitir que uma meia dúzia de supersticiosos, aglutinados a um grupelho de maldizentes locais – os do costume – viessem a terreiro infernizar a feira, invertendo-lhe o nome, não sei, não!

O dia 1º de novembro, contrariando o Borda d’Água, amanheceu soalheiro. Por volta das 11h00, o arraial da feira começava a ficar bem composto; inclusive já se denotavam enormes manchas de forasteiros, daqueles que, ao invés de ver o fundo à panela, preferiam observar o testo. Por isso, foram cedo. Os comerciantes, augurando um grande dia de negócio, esfregavam as mãos de contentes, parecendo estar a contar com o ovo no dito da galinha. Porém, entre augurar e agoirar há uma ténue linha que, dependendo do prisma, tanto pode cambar como descambar. E foi esta mesmo que aconteceu.

À época, a tourada era o ponto forte da Feira dos Santos. Quase sempre com um bom cartaz tauromáquico, as muitas dezenas de bandeiras que simbolizavam o espetáculo eram hasteadas, de véspera, lá no alto, na cimalha periférica da praça. Mas, para haver tourada, tinha que haver touros. Estes, escolhidos como elite de entre uma apurada raça numa manada da lezíria ribatejana, ao contrário dos seus futuros lidadores, davam entrada pela portinhola dos fundos. Era, pois, suposto que todo o plantel bovino tivesse entrado pelo mesmo buraco, mas tal não sucedeu. Negligenciando as mais elementares regras de segurança, quer o motorista quer o abegão, mandaram as regras e a sensatez às malvas, e vai de deixar uma descomunal fresta entre o camião e o hall do touril. O resto, não será difícil adivinhar: um touro mais esbelto e… rua com ele.

O animal, pondo-se ao fresco na frescura da liberdade matinal, mas espavorido pela gritaria dos circunstantes, encetou uma curta corrida e estacou em frente a um carrocel. Deteve-se por ali uns momentos, talvez para saudar os seus parentes, ruminantes ou não, tornados bandas de bancos de assento, onde, mais à tardinha, as meninas iriam pousar os seus predicados. Agora, era o bonito! A loucura tinha-se instalado por todo o terreiro da feira. O pessoal, em alta berraria, gritava: “Fugiu o touro! Fugiu o touro!”… Juravam alguns profetas da desgraça a quem o touro, num esgar, já havia baforado o traseiro, que aquilo era mesmo o Dia do Juízo Final. Um boidemónio, onde até os campinos fugiram e nem as tendas dos ciganos escaparam. Uma razia, à cornada.

E o touro? Onde estaria agora o touro?

Artigo publicado na edição de outubro do Jornal de Cá.

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