111 anos de história

Opinião de Frederico Guedes

Inaugurada em agosto de 1904, não poderia deixar de dedicar esta crónica à minha casa comercial situada na Rua Batalhoz (igualmente conhecida por Rua da Carreira), uma comemoração desde já enaltecida nesta “capicua” de cento e onze anos de existência em conformidade com o seu registo comercial. No seu início foi uma casa de ferragens e sede de uma Fabrica de Gelo que possuíamos na Rua Luís de Camões, onde um complexo sistema de maquinaria e respetivos motores em tubagens helicoidais geravam grandes blocos de gelo que eram vendidos principalmente para que os vendedores nos mercados e os comerciantes de peixe, vindos de locais como Peniche e Nazaré, os transportassem nos seus veículos para que as suas cargas chegassem frescas aos mercados da zona de Lisboa.

Depois de terminar a sua licenciatura em Farmácia o meu avô, de seu nome Joaquim Calixto Howell Guedes (foi Presidente da Sociedade Filarmónica Cartaxense, estando a sua fotografia emoldurada na respetiva sede, e Presidente da comissão Organizadora das festas de maio em 1937 cujo sucesso das mesmas foi divulgado em toda a imprensa nacional), passou nos anos 20 a gerir a ‘Pharmácia Guedes’ situada na Rua da República em sociedade com o primo Correia dos Santos, negócio onde durante muitos anos aí se manteve, até à alteração do seu nome com o términus da dita sociedade comercial.

Nas suas investigações laboratoriais criou uma pasta dentífrica que esteve presente na Exposição Portuguesa no Rio de Janeiro em 1923 (conforme diploma comprovativo e um exemplar em minha posse com embalagem em estanho) e como acabou por não registar a sua patente, houve um empregado seu que a levou para o Porto, tendo vendido a respetiva formula à célebre empresa Couto. Dos seus formulários destacaram-se um formicida de seu nome Atila (aplicava-se num algodão embebido nos formigueiros) ou a Manon uma marca de brilhantina para o cabelo, que chegaram a ser comercializados para todo o País. A manterem-se nos dias de hoje, igualmente de sua autoria, vendemos o Milagroso (formulário de óleos naturais para as mobílias e que foi batizado com esse nome pelos clientes) e outro Óleo para os Alumínios.
Na Drogaria Guedes, implantou o negócio de produtos químicos e um laboratório de análises de vinhos e azeites, monoculturas que imperavam em toda a nossa região e de elevada importância pois, ao longo dos anos, dos seus resultados dependiam financeiramente os agregados familiares da sua venda.

O meu saudoso pai acabou por dar continuidade ao negócio tendo, como enólogo através das suas direções técnicas, permitido a entrega a vários vitivinicultores de vinhos premiados, no qual se destaca um 1º prémio na Junta Nacional dos Vinhos, na colheita de 1979 ao vitivinicultor Guilherme Luís da Silva com a participação de mais de 300 produtores e Adegas Cooperativas, conforme Diploma justificativo.

Considerada pelo seu registo comercial como uma das mais antigas perfumarias do país, vendiam-se essências avulso pelo que os clientes traziam os frascos de casa para encher às medidas, e outro caso curioso era a existência de uma pequena mesa com um aparelho onde uma empregada “apanhava” as malhas que se abriam nas meias das senhoras.

Na loja vendiam-se igualmente, para todas as festas da região, foguetes, assim como nas festas dos Santos Populares e Carnaval, bombas, cobrinhas, morteiros, rastilhos, fulminantes e estalinhos, pelo que se possuía, nas traseiras da casa, um depósito com as condições apropriadas onde todos os meses uns fiscais da Sociedade Portuguesa de Pólvoras vinham registar e quantificar o material explosivo. A continuação descritiva da diversidade de artigos da loja iria ser deveras extensa pelo que teria tema para redigir mais duas crónicas, ora pela falta de espaço ficaria por aqui, ou seja diria mesmo por cá.

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