25 de Abril

Por Matilde Cunha

Sou muito nova para compreender a sensação que foi presenciar o 25 de Abril de 1974 e tudo aquilo que o procedeu. Sou muito nova para compreender o sentimento de passar duma ditadura para uma democracia e de, finalmente, sentir o gosto da liberdade e a lufada de ar fresco que pessoas como o Capitão Salgueiro Maia trouxeram a Portugal. 

A Assembleia da República decidiu esta quarta-feira o modelo de comemorações do 25 de Abril, com a maioria dos partidos a defenderem a realização da sessão solene no parlamento com limitações devido à pandemia de Covid-19. A conferência que deveria incluir mais um pedido de renovação do estado de emergência seria a mesma onde se discutiria o modelo das comemorações oficiais do 25 de Abril, que anualmente passam por uma sessão solene na Assembleia da República com discursos de todos os partidos, do Presidente do Parlamento e do Presidente da República, numa cerimónia a que assistem as mais altas figuras da nação e os capitães de Abril. 

O estado de emergência é renovado, o modelo das comemorações é votado. Votos a favor da realização das comemorações por parte do PS, PSD, Iniciativa Liberal, BE, PCP, Verdes, ainda que com as devidas propostas de modelo. O CDS-PP e o PAN propõem, respetivamente, que a cerimónia solene seja substituída por uma mensagem ao país do Presidente da República e que a realização da sessão solene seja feita através de videoconferência. Totalmente contra, o CHEGA, que considera “um absurdo” que haja comemorações quando o país está em confinamento, propõe que cada líder parlamentar partilhe “online” as suas mensagens nesse dia.

A contradição não poderia estar mais presente no nosso Parlamento. No mesmo dia que se decide renovar o estado de emergência nacional, como foi ontem anunciado pelo Presidente da República, decidem-se as celebrações solenes do 25 de Abril, que contarão “com cerca de um terço das bancadas parlamentares e alguns convidados”.

Chegam-nos notícias e dados de que o número de casos subiu para 687 mortos e que há mais de 19 mil infetados em Portugal. Há informações para ficarmos em casa, recomendações para sairmos apenas para o estritamente necessário. Devemos usar luvas? Devemos usar máscaras? 

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O país está assustado, as pessoas têm medo. Estamos a treinar e a praticar o distanciamento social das pessoas de quem mais gostamos. Parece-nos justo que o estado de emergência seja parado para a realização das sessões solenes? 

Apesar de ter nascido muitos anos depois do 25 de Abril, bem sei a importância da data. Comemora-se a coragem, a força, a sede de mudança, a liberdade. E, por isso, não posso fingir que não custa a todos que as comemorações sejam adiadas ou canceladas. É um dia importantíssimo para todos, para a história de Portugal, para a nossa nação. 

Seja como for, é inegável que vivemos um momento único. Nada está como devia estar. Aniversários, festas e casamentos tiveram de ser cancelados. Momentos decisivos e importantes na vida de muitas pessoas tiveram de ser adiados. Estamos todos em stand-by. Alunos estão a ter aulas em casa, milhares de pessoas estão em teletrabalho. Muitos idosos estão sozinhos durante esta quarentena, em casa ou em lares. No fundo, temos um desejo coletivo: não sermos infetados e, principalmente, que tudo isto passe e que possamos voltar a estar todos juntos, como estávamos antes.

Mas para isso, é preciso que se cumpram regras, que se sigam as normas. E, desta forma, as celebrações solenes do 25 de Abril devem ser canceladas e substituídas por um modelo que permita a todos a sua segurança. 

Neste 25 de Abril, repensemos a nossa liberdade, que vemos agora condicionada por um vírus altamente transmissível. Será assim tão fulcral para todos nós que diversos partidos políticos se reúnam neste dia, pondo em causa o exemplo e as declarações que fazem, pedindo-nos para ficarmos em casa? Serão assim tão importantes as comemorações do Dia da Liberdade, numa altura em que ansiamos pela nossa e em que um ajuntamento pode piorar toda a situação nacional? 

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