3 mulheres que querem escrever uma página na história do Ateneu

No mês em que se assinala o Dia da Mulher fomos até ao Ateneu Artístico Cartaxense, conhecer as três mulheres que estão agora à frente desta coletividade centenária, historicamente comandada por homens

O Ateneu Artístico Cartaxense sempre foi uma instituição muito masculina e com um núcleo muito fechado, durante décadas só os sócios podiam frequentar as instalações e, por isso, tinha um cariz elitista aos olhos da comunidade. Entretanto, Maria João Oliveira, a primeira mulher a ser presidente desta coletividade veio romper um pouco com essa tradição, abriu as portas da instituição a toda a população, e desbravou o caminho para esta mudança. No biénio anterior a direção já tinha muitas mulheres, agora são três os rostos femininos que ocupam os lugares de decisão da coletividade.

Raquel Ramos, 42 anos, é psicóloga e técnica de tratamento prisional em Vale de Judeus, está, portanto, habituada a trabalhar num mundo de homens. Eleita presidente da direção do Ateneu Artístico Cartaxense (AAC) para o biénio 2023/2024, Raquel já conta com 5 anos nas direções do clube.

Explica-nos que decidiu agarrar este desafio porque o Ateneu lhe diz muito, “tenho uma grande ligação emocional a esta casa, fui atleta há muitos anos e inclusivamente, agora tenho uma filha cá na ginástica”.

A presidente descreve-se como uma mulher de garra e que leva os desafios até ao fim, por isso, fazia todo o sentido continuar pelo menos durante mais esta temporada, para conseguir finalizar o trabalho que tem desenvolvido até agora na instituição.

Nazaré Fabiano é a vice-presidente do clube. Em 52 anos de vida, confessa-nos que até ao ano passado nunca teve qualquer tipo de ligação à coletividade, pois assume-se como uma “menina da aldeia”. Sempre organizou a sua vida por Valada, inclusive em relação aos filhos, que frequentavam apenas atividades lá na terra, que na altura eram muito poucas. Admite que “hoje consigo ver que talvez os tenha condicionado nesse aspeto, ainda que o objetivo fosse claro, retardar o mais possível o fecho das coisas lá.”

Nazaré é responsável de logística numa empresa de rega, trabalhando sempre muito com homens, que até prefere, por ter a ideia de que por vezes as mulheres desenvolvem mais ciúmes e intrigas entre si.

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Atualmente, também, integra a assembleia de freguesia de Valada e a comissão de trabalhos do Rancho de Porto Muge e Valada. Vem parar ao AAC pela mão do Rodolfo, funcionário da coletividade, que percebeu ali um pouco deste espírito de voluntariado e achou que também se poderia adequar a esta instituição.

“Em boa hora aceitei este desafio, porque estou a gostar muito e sinto que o grupo que se criou, parece que já se conhece há anos”, refere a vice-presidente.

Andreia Tristão, 33 anos, engenheira alimentar, desempenha a função de tesoureira no Ateneu. É natural do Vale da Pedra, mas atualmente vive no Cartaxo. A estima pelo clube vem desde pequena quando ali praticou natação, entretanto saiu e a ligação perdeu-se. Agora está de volta disponível também para integrar a direção.

Considera-se uma mulher dinâmica que gosta de desafios, pois inscreveu-se também este ano para fazer um mestrado. “Isto torna ainda mais difícil conciliar tudo, mas vamos falando, resolvendo e arranjando uma forma de eu ir estando presente”, afirma a tesoureira. Para Andreia não é necessário “aparecer muito”, desde que o trabalho seja bem executado no geral “está tudo bem para mim, porque somos uma equipa e o importante é brilhar em conjunto”.

Reconhece que este espírito de equipa talvez venha do seu passado enquanto militar na força aérea e que, por isso, o trabalho de grupo seja algo muito intrínseco na sua personalidade. A tesoureira realça ainda que, “se todos nós dermos um bocadinho à sociedade talvez as coisas não fechassem tanto e não se perdessem, mas infelizmente noto que na minha geração não existe muita gente predisposta a trabalhar em prol da comunidade”.

Neste momento, o Ateneu Artístico Cartaxense está com uma situação monetária regularizada, “não temos dinheiro, mas também não temos dívidas”, explica-nos Andreia. Esta situação, só é possível devido à disponibilidade de todos em prol da instituição, tempo e trabalho voluntário, para se ir organizando eventos, como as festas na discoteca Lipp’s, caminhadas das cores, entre outros tantos eventos que vão promovendo para angariar fundos. É também importante salientar a compreensão por parte das famílias, pois todo o tempo que dedicam ao AAC, perdem com os seus.

Extra instituição, todas reconhecem que este projeto estreitou laços de amizade para a vida e que tem sido uma experiência muito gratificante. Para Raquel, estar rodeada de mulheres faz com que tenha aliadas de uma forma diferente. “Já nos deparámos com situações que sem falarmos umas com as outras temos a mesma linha de pensamento”, garante a presidente.

Acrescentam ainda que a direção do clube devia ser constituída pelos pais dos atletas, “só assim faz sentido”, o que acontece neste momento é que não há pais suficientes que estejam disponíveis, o que as leva a perceber que as gerações vindouras não têm muito o espírito do associativismo.

A decisão de continuar na direção prende-se com o peso de ser uma instituição tão antiga e de quererem “escrever uma página na história do Ateneu, tanto com a aquisição da nova pista de tumbling como com o licenciamento do edifício”. Para elas, é importante acabar o trabalho que começaram, “deixar a casa arrumada” e claro se conseguirem arranjar mais algum material, melhor. Depois da pista de tumbling e do licenciamento do edifício, o objetivo é conseguir mais um trampolim.

Destacam este ano que passou como muito proveitoso em termos de receita e da obra que fizeram na fachada, mas admitem que “temos de ir por prioridades”, e claro saber gerir bem todas as decisões, e reconhecem que nem sempre se consegue agradar a todas as pessoas. Por exemplo, a compra da pista de tumbling, nunca foi consensual, “sabemos que neste equipamento o investimento é muito grande sendo utilizado apenas para uma modalidade, mas o que é certo é que ou há pista ou não há classe de Tumbling”, frisa a presidente.

Além disto, consideram que é necessário explicar que o clube só consegue ter os resultados que tem se tiver equipamento adequado. Uma das lacunas de receita que estão a ter vem já do ano passado, é com a modalidade de natação, devido às piscinas não estarem em funcionamento. “Tínhamos cerca de 200 alunos que estamos a perder para os concelhos vizinhos de Azambuja e Santarém, ainda que existam alguns casos, especialmente nos miúdos mais pequenos que optaram por vir para a ginástica, mas são poucos”, conclui Raquel Ramos.

Atualmente, começou-se a ouvir falar mais do Ateneu, tanto pelos resultados que se vão obtendo nas modalidades e que levam o nome do concelho do Cartaxo mais longe, mas também porque “tentamos incutir esse espírito de que esta casa é aberta a todos, pois se continuasse com esse elitismo todo, já tínhamos fechado portas”, garante a presidente.

Isuvol
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