“Para nascer, Portugal; para morrer, o mundo”

Opinião de Gil Moleiro

Padre António Vieira

Parti para o sul da França com bilhete apenas de ida a 27 de Maio de 2014. Levava comigo uma mala na mão e na cabeça a música dos Sétima Legião : «Noutro lugar».

Os meus primeiros tempos num país estrangeiro foram-me complicados. Via ou imaginava Portugal em todo o lado : ele era no cabeleireiro quando via as «madames» francesas a falar na vida de uns e de outros ou quando ouvia músicas do Tony Carreira cantadas por franceses. Esta procura de ver Portugal em França, no estado imaculado e puro, acabou por acontecer em Outubro de 2015… já vos conto:

Num belo domingo, antes de almoço, lembrei-me de ir comprar uma revista. Entro eu no magasin das revistas e deparo-me com uma fila daquelas. Como é normal por estas bandas, deve-se dizer, mal se entra, um bonjour de maneira que seja audível em toda a loja. Eu digo o meu bonjour sempre pianinho, o que deixa sempre os do fundo a olhar para mim de esguelha. Adiante…

Penso eu que qualquer estrangeiro que não domine totalmente a língua tenta fazer as suas compras de maneira a parecer invisível. É por isso que vamos sempre aos mesmos sítios, porque o nosso interlocutor já conhece as nossas dificuldades em nos exprimirmos e acaba por nos desculpar das confusões que habitualmente fazemos com os verbos avoir e être.

Eu já estou tão familiarizado com isso que consigo reconhecer sempre um recém emigrante numa loja (excluo ingleses e alemães, esses normalmente não se atrapalham). Estou a falar de portugueses, arménios, polacos, entre outros. A postura é sempre a mesma, ombros encolhidos, cara baixa e quase todos eles já levam o dinheiro contado na mão. Mas perguntam vocês: por que motivo já levam o dinheiro contado na mão? e eu respondo: é para limitar ao máximo o diálogo e poder, assim, ir embora o mais rápido possível.

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Sou então o 15º na fila. Estão duas pessoas na caixa. Ele é o típico marselhês, isto é, viu tudo, sabe tudo e di-lo de forma audível. Ela tem cabelo escuro, é exuberante e instável, isto é, nunca sabes se é um bom dia de alegria infinita ou então o prenúncio de que vais ser destratado. Adiante …
Estou eu, então, na fila e apercebo-me de que há um tuga além de mim. Ele é português, porque a senhora da caixa lhe diz em português:

«Então Manel, foste pôr o carrelage hoje?»

E ele, timidamente e baixinho, diz :

«Hoje não, tenho cá a mulher!»

… ao que ela rebate …

«Eh pá, então hoje é que vai ser!»

Ele baixa os olhos e faz um sorriso de um menino de dez anos. Ele tem o dinheiro na mão e espera ser atendido por ela. Sinto-o tão bem. A fila reduz-se e ela replica :

«Oh Manel, há quanto tempo é que não mandavas uma foirada?»

Já não ouvi a resposta porque nesse momento já estou a tentar pensar em funerais para não me rir. Mas nisto de querermos pensar noutras coisas, lembrei-me de uma estória que a minha mãe me contou, passada também num funeral, cuja descrição reza mais ou menos assim :

«Oh Gilito, se tu soubesses o que se passou hoje no funeral da Maria. Então não é que o coveiro escorrega para dentro da cova, a pá segue-lhe o mesmo destino, batendo-lhe fortemente na cabeça, começando logo a sair jatos de sangue de dentro da cova. Olha, filho, aquilo era só gente a gritar e a fugir!» E eu lembro-me de lançar um olhar febril para a minha mãe, para depois nos começarmos a rir.

E nestas deambulações começo-me a rir sozinho no «magasin». As lágrimas correm-me pela face e ainda tenho cinco pessoas à minha frente. Se eu fosse um rapaz com sorte, a senhora ter-me-ia salvo, dizendo :

«Ah, também és português!»

Mas não, um senhor que está à minha frente pede-lhe cigarros e ela parte ao armazém buscá-los. Chega rapidamente a minha vez e o marselhês faz-me perguntas que nem ouço, porque estou a chorar a rir. Lá consigo pagar, sabe-se lá como, e saio.

Pensei: «O pior já passou», entro no carro e posso rir à vontade, feito parvo, é certo. Mas não, aparece-me uma tia de cascais, cujo filho é amigo do meu filho mais novo e me pergunta por ele. A questão de ser uma tia é importante, porque não posso justificar porque estou naquele estado, além disso não sei como se diz «foirada» em francês. A senhora, em vez de me deixar ir, resolve prolongar o diálogo/ monólogo, e eu estive cinco longos minutos a rir sem conseguir balbuciar uma palavra. A senhora lá me deixou ir sem eu sequer me conseguir desculpar.

Oh, Padre António Vieira, se ao menos tivesses concluído a tua frase com um manual de instruções …

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