80 jovens do Cartaxo querem ajudar a mudar o mundo

 

Celebrou-se a 5 de dezembro o Dia Internacional do Voluntariado. A data foi instituída pelas Nações Unidas em 1985, e tem por objetivo incentivar e valorizar o trabalho voluntário em todo o mundo.

voluntarios

Em Portugal, o voluntariado tem vindo a aumentar. Não obstante, o número de voluntários em Portugal é reduzido, se comparado à média europeia.

O voluntariado é um ato de cidadania, contribuindo para reduzir as disparidades sociais e para promover a necessidade e o dever de ajudar o próximo. Além disso, e para o voluntário, é um ato recompensador, ajudando a alcançar o sentimento de auto-realização.

E parece ser esta uma das motivações dos cerca de 80 jovens que integram o projeto de voluntariado na Escola Secundária do Cartaxo. Numa altura em que a vida humana parece ter cada vez menos valor, ouvir jovens a dizer que só o facto de saberem que contribuem para algo positivo num mundo que todos os dias se degrada à nossa volta, “é extremamente gratificante”, ou que “nós queremos mostrar ao mundo que somos bons e que podemos contribuir com algo positivo, mesmo que não sejamos adultos, e que os jovens não são tão impotentes como as pessoas pensam”, deixa-nos de alma cheia.

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O projeto de voluntariado na Escola Secundária do Cartaxo começou há cerca seis anos, com três ou quatro vertentes. O professor António Cordeiro, um dos mentores deste projeto, explica que o voluntariado começou “primeiro, de uma grande vontade da disciplina de Educação Moral em proporcionar experiências que fossem significativas, não só há uma certa transmissão, mas depois há uma educação pela experiência, pela prática. Mas tive a sorte de ter a dr.ª Andreia, que era a Assistente Social aqui na Escola Secundária, que quando lhe falei do projeto de voluntariado abraçou-o logo”. Assim, o voluntariado na Escola Secundária arrancou com “situações pontuais de voluntariado, como a recolha do Banco Alimentar ou algumas campanhas de solidariedade que aqui fazíamos, que requerem apenas algum tempo dos alunos, alguma disponibilidade para preparar, divulgar, recolher e depois fazer a parte da entrega. Mas nós tínhamos um projeto, na altura, de volutariado que era ambicioso, por um lado, mas muito necessário, por outro, que era a questão da mentoria”, acrescenta o professor. Assim, e por sugestão da então Assistente Social, “alunos nossos que tivessem um perfil adequado a situações de caráter cognitivo e de aproveitamento escolar, fossem selecionados. Mas também precisávamos daquele perfil do aluno que tivesse uma certa capacidade de organização, de motivação, para os preparar para voluntariado, em que disponibilizariam um tempo da sua vida semanal em que iriam apoiar alunos mais novos com dificuldades, quer no campo dos conhecimentos, quer no campo da motivação”, explica António Cordeiro.

O projeto de voluntariado da Escola Secundária continuou a apoiar projetos, como o Por uma Nova África, e “daí partimos para atividades mais concretas e mais prolongadas, digamos com um comprometimento maior. Então, fizemos também com crianças, chegámos a ter voluntários no Jardim de Infância do Cartaxo”, diz António Cordeiro, acrescentando que estes voluntários faziam várias atividades, “desde dar apoio no Inglês, ajudá-los no momento da refeição”. A este voluntariado juntou-se, igualmente, o voluntariado com a população sénior, “porque nós questionamos os nossos alunos sobre o tipo de atividade que gostariam de vir a fazer, e eles falavam sempre em crianças e idosos. E surgiu a ideia de, com o Lar de São João, começar a encaminhar os voluntários para atividades de voluntariado com idosos”. “Tivemos bastante bons resultados”, avalia o professor, porque “houve algumas atividades com bastante interesse e que até marcaram os nossos alunos. Estou-me a lembrar de um projeto de intercâmbio, de troca de experiências intergeracionais, em que os nossos alunos organizaram atividades aqui na escola, para além de visitarem os idosos lá, os idosos foram convidados a estarem com eles aqui, chegaram a organizar um desfile de moda com roupas de época”.

Esta atividade foi, de resto, a preferida de alguns dos voluntários.

Milene Batista, que integra este projeto desde o ano passado, salienta as visitas que fez a uma idosa como das mais gratificantes. “Ia visitar uma senhora, que vivia sozinha, e sentia-me bem a ajudar, a falar com ela, porque via-se que ela se sentia bem, que quando nós estávamos lá ela tinha sempre um sorriso na cara, e isso é bom, sentir que as outras pessoas ficam felizes quando nós ajudamos”.
Beatriz Costa e Joana Ramalho também ficaram rendidas ao contacto com os mais velhos. Ambas voluntárias há dois anos neste projeto, Beatriz Costa rendeu-se aos encantos dos idosos do Lar de São João. “Aquilo começou a fazer parte do meu dia a dia. Às sextas feiras era o dia que costumávamos ir lá, e quando não ía sentia falta, porque nós tínhamos uma relação especial com os idosos. O facto de nós estarmos só a ouvir aquilo que eles diziam, não precisávamos de falar, deixava-os contentes, e isso, para nós, já era muito importante”.

Joana Ramalho realça que “acho que eles beneficiavam com a nossa presença lá, porque havia muitos que já não viam a família há muito tempo e nós éramos uma presença boa, para ouvir as experiências deles, contactar com eles, mas também foi benéfico para nós, porque alguns ficaram um pouco como nossos avós naquele tempinho em que estávamos com eles”.

Tal como refere António Cordeiro, o voluntariado marca a vida dos voluntários. Exemplo disso é “uma aluna, que acabou por a motivar e ajudar a decidir o futuro académico dela. Ela foi fazer Gerontologia, exatamente porque foi uma experiência muito próxima, e que a ajudou a decidir por aí”, realça.

E depois, “entra” a YoungVolunTeam.
YoungVolunTeam
O Programa YoungVolunteam é um projeto da Caixa Geral de Depósitos, em parceria com a Sair da Casca e a ENTRAJUDA, que pretende promover o tema do voluntariado junto das escolas do Ensino Secundário de todo o país, reforçando o reconhecimento da importância do seu contributo para o desenvolvimento de competências fundamentais nos jovens em diferentes eixos: inclusão social, educação, emprego e cidadania.

Para participar nesta iniciativa, cada escola deve formar um grupo de até 12 alunos embaixadores e 1 professor, que se destaquem pela sua capacidade de mobilização. Os alunos atuarão como agentes de mudança na escola, implementando as ações que lhes são propostas no âmbito do programa e disseminando os valores do Voluntariado, não só entre os colegas, mas também junto de alunos de outros ciclos, das famílias e da comunidade local.
“Há uns anos a esta parte é uma grande preocupação do Ministério da Educação, proporcionar atividades de voluntariado nas escolas, educação para o voluntário. E isso significa dizer uma coisa muito importante, que é o que eu digo aos alunos: educação para a relação com o outro e o amor ao próximo. Costumamos dizer que uma pessoa não pode gostar dos outros se não gostar de si, e nós entendemos ao contrário, eu gosto mais de mim na medida em que gosto mais dos outros, e o voluntariado permite perceber isso”, salienta António Cordeiro.
Este programa procura que os voluntários dinamizem, pelo menos, uma atividade de voluntariado na comunidade e que desempenhem um papel de sensibilização e formação junto dos mais novos. “Eles partem de uma sensibilização para terminar numa experiência, pequenina que seja, de voluntariado”, explica o docente.
Esta foi a melhor esperiência de Cassandra Reimond e Joana Magalhães.
Joana Magalhães diz que “o que mais gostei foi ir a uma turma de 2º ano dar formação sobre o que é ser voluntário. Eles aceitaram muito bem, eles também quiseram ser voluntários e dizer aos outros alunos da turma que aquilo era giro, para os incentivar a serem voluntários. Eles próprios foram voluntários”.
Cassandra Reimond destaca que esta formação envolveu os mais pequenos, “porque começámos a recolher rolhas e eles ainda continuam, para um menino de cadeira de rodas”.

E existem, ainda, aqueles voluntários que retiram a maior das gratificações com qualquer atividade. São os casos de Maria Inês e Ana Esteves.

Maria Inês resume tudo isto numa frase: “é bom ajudar. Acho que é o nosso dever. Se todos dermos um bocadinho, é mais fácil, e como alguém tem de tomar a iniciativa… Dentro deste projeto, acho que gostei um bocadinho de tudo, porque é tudo importante”.

Já Ana Esteves, uma das muitas integrantes deste projeto que traz o ‘bichinho’ do voluntariado de casa, exemplifica algumas das atividades desenvolvidas. “Nós temos atividades que são tão boas para o ambiente como para as pessoas, trocamos papel por alimentos. Também fazemos recolhas para a Cruz Vermelha, cá na escola. Acho que por mais insignificante que seja a quantia ou por mais simples que seja a iniciativa, tudo tem a sua importância, porque se nós pudermos dar um bocadinho aos outros daquilo que nós não precisamos, vamo-nos sentir sempre bem por saber que estamos a ajudar alguém”.

Para além das campanhas que vão acontecendo ao longo do tempo, existem iniciativas “fixas” na Escola Secundária, como o Mostra o Teu Valor, no Natal, “que o ano passado, por exemplo, associámos a um projeto de Semear Sorrisos, que é um projeto em Cabo Verde, com material escolar. Este ano também estamos a colaborar com eles, com uma atividade que se chama Escrever para o Mundo. Temos, também, a campanha de recolha de leite, que é encaminhado para as Conferências de São Vicente de Paulo”, salienta António Cordeiro.

No que respeita ao projeto YoungVolunTeam, “este ano estamos a pensar dinamizar atividades de recolha de alimentos para animais. Nós preocupamo-nos, de acordo com a sensibilidade dos alunos, com as pessoas, o ambiente e com o que isso envolve”, antecipa.

Uma atividade que vai, de certo, ‘encher as medidas’ de Inês Ramos, entrada este ano no projeto. A aluna destaca que, apesar de ainda não ter participado em nenhuma atividade, “sempre quis entrar, e acho que está a ser bom. Mas gostaria de fazer um pouco de tudo… Ajudar pessoas, animais”.

Quem também vai ficar feliz é João Agapito. No projeto desde o ano passado, “a atividade que mais gostei foi ir ao Refúgio Animals Angels para ajudar os animais. Acho que isso foi bom. Colocar a ração, fazer um pouco de divulgação para as pessoas ajudarem mais”.

Para continuar, a campanha de troca de papel por alimentos, “que já temos há quatro anos, e que conta com a colaboração da professora Soledade e do nosso funcionário José. Para este ano, temos ainda a visita a idosos, não no Lar de São João, mas no Lar A Minha Mãe. E depois, estarei à espera daquilo que serão as iniciativas dos nossos YoungVolunTeam”, resume António Cordeiro.

O programa YoungVolunTeam está “desenhado” como um concurso, “mas o que temos vindo a pensar enquanto equipa, e eu, enquanto coordenador, é que isso não é o mais importante. Aliás, o ano passado, o nosso aluno Humberto, que já está na faculdade, elaborou o relatório como pede o Regulamento. Fizémos tudo, mas acabámos por não submeter. Porque nós não temos de estar à espera de nada em troca. Por vezes, fazem-nos a observação ‘vocês deviam divulgar mais’. Mas também temos este princípio, não estamos à espera de um reconhecimento que favoreça demasiado o orgulho das pessoas. Tem de ser algo discreto”, considera António Cordeiro.

“Estas atividades que nós desenvolvemos aqui devem passar, sobretudo, pela interioridade. Os nossos alunos devem desenvolver os valores, não de uma forma imediata e à espera de resultados imediatos, mas convictos que aquele bem que estão a fazer à pessoa mais próxima, vai ter repercussões noutras pessoas, certamente. É nisso que acreditamos, é assim que estão envolvidos neste projeto de voluntariado”, finaliza António Cordeiro.
Afinal, o que é o voluntariado?
O Jornal de Cá quis saber o que é, afinal, para estes alunos, o voluntariado.
A definição de Ana Esteves resume toda a conversa que mantivemos com estes jovens:

“Para mim, é o saber que ajudámos. Só o facto de nós sabermos que contribuímos para algo positivo num mundo que todos os dias se degrada à nossa volta, porque muitas vezes sentimos que não temos poder de alterar as coisas, saber que nós podemos contribuir todos os dias para um mundo melhor, não só para nós mas para os outros também, é extremamente gratificante. Porque não é ajudar as pessoas, é ajudar as pessoas, o ambiente… Muitas vezes as pessoas pensam que estas coisas são insignificantes, mas se nós pudermos aquecer uma pessoa à noite, ou se nós pudermos restituir alguma beleza à nossa comunidade com o arranjar de um jardim, faz muita diferença a longo prazo. Ninguém precisa de saber que nós demos um cobertor aquele sem-abrigo, ou que fizémos uma recolha disto ou daquilo. O que interessa é que essa pessoa se sinta bem e que nós aprendamos a dar-nos sem esperar que os outros se dêem a nós. Nós sabemos que estamos a ser praticantes daquilo que os nossos pais nos ensinaram e sabemos que estamos a ser um exemplo para os outros, e nos dias de hoje é extremamente necessário que nós estejamos a dar o exemplo aos outros, porque cada vez mais há pessoas que não dão o exemplo, há cada vez mais exemplos que não são bons, e as pessoas só vêem a parte má, e nós queremos mostrar ao mundo que somos bons e que podemos contribuir com algo positivo, mesmo que não sejamos adultos, e que os jovens não são tão impotentes como as pessoas pensam”.

Olhando para o exemplo dado por estes cerca de 80 jovens, não, não são impotentes, e nós contamos convosco para ajudar a mudar o mundo!


 

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