A África da Europa

Por João Fróis

Portugal deu mundos ao mundo na sua mui nobre e ousada senda dos Descobrimentos e África surgiu como o destino primeiro das investidas marítimas das caravelas lusitanas. E à medida que os cabos iam sendo vencidos, Bojador e Boa Esperança, foram sendo criadas raízes profundas, sedimentadas nos séculos seguintes, em diversos pontos deste imenso continente, pátria do surgimento dos primeiros hominídeos. A história demonstra a ligação e importância da presença portuguesa ao continente negro e ainda hoje os países de língua oficial portuguesa marcam boa parte da sua atualidade política e económica.

No entanto África não é conhecida como berço de democracia e muito menos de paz. As tiranias têm aqui grande fulgor e as guerras intestinas entre fações, etnias e vários grupos de interesses vão manchando de sangue este massivo e imponente continente. Os nomes são conhecidos e não cabe aqui fazer um elenco, antes apenas e só o exemplo.

Infelizmente Portugal tem vindo a provar que tem em si muito do pior de África. A forma desajeitada e infeliz com que conduziu os processo de descolonização mancharam ligações seculares e que mereciam ter tido outro epílogo, evitando guerras esvaziadas de sentido e muito menos de avisada razão.
Ficaram ligadas ao estertor do Estado Novo mas marcaram muito os primeiros anos da democracia e a forma como as instituições se forjaram. Os piores vícios foram sendo assimilados e temos assistido nos últimos anos a um desfilar triste da sua exposição pública.

As mais recentes polémicas políticas mostram-no à saciedade. As pequenas burlas das moradas de alguns deputados da assembleia da república demonstram algo que outros tantos episódios anteriores tinham vindo a revelar, muitos dos que nos representam no hemiciclo não são dignos de tal honra e mostram que por trás da figura pública vive um normal português, useiro e vezeiro nos esquemas, nas aldrabices e nas fugas às suas mais elementares responsabilidades. Ouvir o velho chavão que o português é o mestre do desenrasque deixa-nos um sorriso complacente no rosto, já assentir no velho vício de só pagar aquilo que tiver mesmo de ser, deixa-nos no pelotão dos últimos na ética e não nos distingue de nenhum dos países africanos onde o poder ainda é altamente discricionário, abusivo e prepotente.

O episódio do momento em que Manuel Pinho figura à cabeça de mais um lamentável caso de corrupção, vem acrescentar mais umas quantas nódoas neste imenso lençol, já de si rasgado e sujo, da democracia portuguesa. É constrangedor assistir a um sem fim de casos em que responsáveis de cargos públicos, abusam das suas posições privilegiadas para daí retirarem benefícios próprios ou coletivos de onde retirem igualmente outro tipo de vantagens corporativas e indiretas, muitas delas dissimuladas na saída da ribalta política e do esquecimento que se lhes segue. Esta é, para mal do povo português, uma das piores características sociais e culturais desta velha nação, o esquecimento. E com ele o alheamento, o desinteresse e o baixar de braços perante realidades que ao invés de serem combatidas, tal como o foram nos primeiros anos da República, são cobardemente assentidas.

Portugal é hoje em dia um país anacrónico, de contrastes gritantes. De um lado a imagem de um país que recuperou da ajuda do FMI e que está com a economia em alta, no topo dos destinos turísticos e claramente na moda. Do outro temos um sem fim de escândalos políticos e financeiros, com ligações perigosas e sujas entre a banca e o poder, e onde figuras que em tempos estiveram em alta e tidos como exemplares, estão hoje na condição de suspeitos, arguidos ou até condenados por processos de ilegalidades, abusos de poder e corrupção.

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A pérola de toda esta tenebrosa teia de interesses intrincados e que vai atirando Portugal para um lamaçal sem fim, foi dada pelo partido socialista com a saída de José Sócrates da filiação partidária. E não é a saída em si que é preocupante e muito menos o atraso com que se dá, o que realmente nos deve a todos tirar o sono é a leviandade com que se tentam lavar culpas e consciências e sem que sequer se pense em assumir o que quer que seja, tentando, uma vez mais, atirar tudo para esse esquecimento onde se vão enfiando, a custo, toda esta montanha de casos e escândalos que assolam este país.

Tantos do que antes apoiaram o ex-primeiro ministro, que enalteceram as suas qualidades e ajudaram a criar o mito, são agora os primeiros a sair de cena, quais ratos a abandonar o navio em chamas, tentando aliviar as suas culpas com a mesma intensidade com que se tentam afastar do agora excomungado. A hipocrisia atinge níveis históricos nesta democracia de papel. Mas ninguém na política está a salvo. Todos os partidos são responsáveis pela lamentável e até patética situação a que chegámos. Há anos que tantos arrogam querer reformar o Estado mas nada se faz. E se desconfiamos os porquês que subjazem a esta inação, a sucessão de escândalos e as suas evidências demonstram, sem apelo nem agravo, as verdadeiras razões que levam a que ninguém ouse sequer tentar desmontar o status quo. As teias de interesses e os benefícios imorais que muitos têm colhido são a cola que une todo este sistema podre e nauseabundo. O estado, ou estadão, tem sido uma banquete gourmet para uma elite saciar a sua gula de poder, dinheiro e manutenção dos quinhões amealhados à custa de uma política fiscal imoral, aberrante e profundamente injusta que castiga sem quartel o povo português. Tudo isto parece ser mau mas temo que a realidade seja ainda bem pior e que estas tristes semelhanças com os piores regimes africanos não sejam apenas coincidências.

A pergunta que uma vez mais se impõe tem de continuar a ser feita sem hesitações, até quando vamos continuar a tolerar estes abusos de poder? Até quando nos vamos manter calados enquanto somos expoliados, manietados e coartados no nosso direito legítimo a um futuro melhor, assente numa governação digna, justa e verdadeira?
Olho para países desta velha Europa e continuo a ver um adn revolucionário e que vem para a rua protestar e pedir as mudanças que urgem, tantas vezes por muito menos do que aquilo que nos apoquenta. Em Portugal não consigo ver essa força coletiva, esse espírito de combate pela legitimidade, pela verdade, pela razão, pela lei. Vejo um povo quebrado na sua alma, entregue a uma luta pela sobrevivência e onde vive mais de um quinto da população no limiar da pobreza, uma busca egoísta por um lugar ao sol e onde quase não existe unidade nacional. Não temos regiões mas vivemos espartilhados nelas. Somos uma manta de vários retalhos, unidos mais pela necessidade do que pelo amor. Somos o interior esquecido, o litoral assoberbado, a capital do poder, o norte do trabalho, o Algarve do turismo, o Alentejo do vinho e Alqueva, o centrão das florestas abandonadas e agora queimadas, um país de contrastes gritantes e que não têm vindo a ser diminuídos, antes aumentados.

O sistema político bateu no fundo e a democracia está doente. Muito há a fazer e a mudar e essa mudança necessária começa pelo exemplo dos que nos regem. E se não o sabem ou querem fazer de livre vontade, então que sejamos nós a obriga-los a aplicarem as leis que fazem. Temos de uma vez por todas de ser melhores europeus e dignificarmos este povo e nação.

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