A Catalunha que não somos

Opinião de João Fróis

Por estes dias, assistimos a protestos violentos nas ruas de Barcelona contra uma decisão judicial, que tendo cumprido a lei na proteção do estado espanhol, foi interpretada como a arrogante ditadura de Madrid sobre os movimentos independentistas catalães. Nove presos políticos mostram a nova face de uma Espanha ingovernável e sem força para manter a unidade territorial. A chegada de novos partidos deu voz a movimentos sectaristas e, em poucos anos, a velha bipartição partidária entre o PP e o PSOE viu-se vaporizada, nascendo uma era de instabilidade e difícil prognóstico na condução da 4ª economia do grupo euro.

Por cá, tivemos, pela primeira, vez a chegada à Assembleia da República de três pequenos partidos. Sem uma representação local ou regionalista por detrás, dão expressão a novas vozes de novos eleitores que não se reveem na velha bipartição entre o PS e o PSD.

Sem as ansiedades e queixas regionalistas que assolam a vizinha Espanha, vemos um novo governo menos dependente dos acordos com comunistas e bloquistas e mais à vontade para ditar as suas próprias leis. Isto torna-se visível na criação do maior elenco governativo dos últimos 30 anos, com uma vincada presença do aparelho socialista, em contraste com anteriores arranjos com maior presença de independentes. O desplante das razões por detrás desta opção de gigantismo funcional vem com a necessidade de responder às exigências da chefia da Comissão Europeia em 2021 mas, em boa verdade, o que se percebe é a urgência de controlar a agenda eleitoral do quadriénio, com regionais, presidenciais e autárquicas e, naturalmente, manter quentes as promessas que já foram lançadas de chegar aos 750 euros de ordenado mínimo no final deste mandato. A ambição do poder mostra as suas garras e veremos que resposta irá dar este governo às mais que justas queixas das vítimas das famosas cativações. Há hospitais sem dinheiro para pagar a fornecedores, escolas sem dinheiro para novas contratações, tribunais a meterem literalmente água nos edifícios e a colapsarem na capacidade de darem respostas em tempo útil. Para não falar de uma rede ferroviária decrépita, de um mercado imobiliário entregue à especulação e asfixiar os créditos à habitação e de um brutal aumento de impostos indiretos que nos castigam sem apelo nem agravo.

Mas por cá, infelizmente, falta-nos essa chama revolucionária que há 100 anos varria tudo e todos e tirava do poder quem não mostrava capacidade de liderança. Na Catalunha existe e está bem viva, por cá vê-se uma acomodação doentia e um assentimento triste aos desmandos de um poder que insiste em se servir de nós, não nos servindo como devia e podia. Acorda Portugal!

*Artigo publicado na edição de novembro do Jornal de Cá.

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