A cruzada concelhia em Marrocos (III)

Crónica de José Caria Luís

Relembrando alguns dos cruzados do concelho em terras do Magreb para além das montanhas do Rif, cito: Agostinho Duarte; Albino Parente; Augusto Sousa; António Manuel Oliveira; António Duarte; Fernando Caria Parente; João Galacha; Joaquim Parente; José António; José Vieira e mais a vasta coluna de outros ribatejanos que lá arribou. Eu próprio, se bem que fizesse parte dos Quadros da Empresa desde há dez anos, também era um cruzado em terras de Hassan II. Destes, alguns levaram a família para Marrocos e, uns em Oujda, outros em El Aioun, por lá residiram durante a duração dos contratos, tendo a empresa estabelecido um subsídio de renda de casa para tal efeito. De modo a proporcionar alguma estabilidade às crianças, criou-se uma Sala de Estudo para os filhos dos colaboradores, orientada pela professora Marlene, esposa do colega António Domingos. Esta, auxiliada pela Luísa Schmitt, lecionava as várias classes ao abrigo do Ensino Particular Doméstico.

No estaleiro, além do aldeamento e do amplo refeitório com capacidade para 350 pessoas, havia um bar, equipado com sala de jogos, um espaço para leitura e convívio e, ainda, um recinto exterior para a prática de futebol de salão.

Enfim, atendendo à época e num país de terceiro mundo, não estava mal, porém o português que anseia sempre mais e mais, além das mordomias dos comes e bebes e passeios de fim de semana, arranjava umas façanhas para trocar horas de trabalho por algum lazer e obter proveitos por via da manigância, onde a obtenção da permis de conduire se enquadrava na perfeição. O esquema era simples: depois de uma aulas de condução, quase sempre em retas desertas a perder de vista, entrava-se na fase do exame teórico. Como era permitido, tirava-se partido da utilização de um intérprete para o efeito. O examinador (marroquino) fazia a pergunta; o intérprete e tradutor Andrade e Silva (chefe do refeitório), fazendo jus à sua veia negocial, fingia remetê-la para o examinando, mas este, pouco sabedor e já ensaiado, vociferava uma confusa algaraviada, o que levava o Andrade e Silva a traduzir, a contento, o que não acabara de ouvir. Era um total sucesso. Todos passavam e, logo, à primeira… Era evidente, que estando nós em terra de negociantes, corruptos, larápios e contrabandistas, ao mesmo tempo que passava o aluno também passavam uns dirhams por debaixo da mesa e empochados diretamente no albornoz do examinador.

Falando de larápios, era frequente desaparecerem, nas frentes de trabalho, peças de ferramentas e outras pequenas maquinetas. Olho que vê, mão que pilha, como aquela lâmpada de holofote, de 1500w. No interior daquela galeria técnica trabalhavam quatro artistas marroquinos. Enquanto o chefe de equipa, o valedapintense José António, saiu para fazer a folha de ponto, desapareceu a lâmpada, tendo os bacanos ficado às escuras, como é óbvio. Regressado o chefe, foi-lhe dada a triste notícia, como se algo de sobrenatural tivesse ocorrido. Se deixássemos o automóvel aberto não o levavam, mas esferográfica ou maço de cigarros à vista, nunca mais se viam. Não fossem os árabes descendentes do Ali Babá.

*Artigo publicado na edição de março do jornal de Cá.

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