A cruzada concelhia em Marrocos (VII)

Crónica de José Caria Luís

Com um apartamento sumptuosamente mobilado, o vilafranquense Carlos Silva, narcisista inveterado, fazia alarde daquele seu luxuoso espaço, não faltando cão nem gato que, a seu convite, o não tenham visitado. Pois bem, como a sua presença no Bar, embrenhado na leitura, era, habitualmente, demorada, não faltou quem disso se aproveitasse, tendo urdido um desprezível plano de ataque aos bens materiais do Carlos. E foi assim que dois desprezíveis manguelas levaram a cabo o torpe atentado que, mais que danos materiais, deixaram o ego do Carlos Silva mergulhado na mais profunda amargura.

O manobrador Nogueira, acolitado por um outro execrável patife, dirigiu-se à récua dos asnos que por ali vagueavam, e, dali, subtraíram uma adonzelada burrita, na testa da qual colaram um cartaz, previamente concebido, com uma curta, mas insinuante, descrição. Levaram a jumenta à mão até à porta da camarata e, por meio de chave-falsa, não tiveram dificuldade em entrar naquele sumptuoso espaço, deixando aí o animal.

Eis que, terminada que estava a leitura do Carlos Silva no Bar, este pôs-se a caminho do seu aposento, já que passava das 23 horas. E o Carlos chegou e entrou. Entrou, mas, ato contínuo, recuou, como se esbarrasse contra uma onda de choque. O homem nem queria acreditar no macabro cenário que se lhe deparava diante dos olhos. Uma hirta asinina que, de olhar meigo, o olhava de frente, em jeito de convite, ostentava na sua lisa testa um cartaz com uma inscrição, talvez alusiva ao momento, que dizia: “ENTRA, QUERIDO!”

A burrinha, ou porque tenha estranhado o ambiente, ou porque já estivera demasiado tempo em sentido, quiçá em continência, porque, a princípio, quereria causar uma boa primeira impressão ao locatário, teria, depois, passado por alguns momentos de ansiedade e sofreguidão, daí o facto de ter deixado indícios de se ter rebolado e enrolado na colcha da coberta, remexido e espezinhado os dois alvos tapetes de lã, e ter removido os armários do sítio. Agora, o Carlos Silva, temendo a reação da jumenta, nem sabia como reagir. Saiu do quarto, fechou a porta, deixando a sua parceira no interior, abriu os brônquios ao ar e pôs-se a caminho do Bar, a fim de pedir ajuda a quem se dispusesse a retirar do quarto a pobre asinina que, involuntariamente, tinha sido eleita para protagonizar uma cena para a qual não tinha sido submetida a qualquer tipo de casting.

As ajudas foram espontâneas. A burrinha, que saiu sem escoicinhar, foi, a passo de trote, juntar-se à burricada vizinha, que, apreensiva, por certo a aguardaria.

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O Carlos Silva, olhando o estrago material provocado pela partida que lhe fora pregada por gentalha de mau porte, nem dava assim tanta importância ao facto, mas a desonra que sentira no seu âmago por tal afronta, seria bem mais abominável que a primeira. Deitou-se, vestido e tudo, mas não conseguiu pregar olho. E foi sem dormir que, na manhã seguinte, se dirigiu ao gabinete do eng.º Farinha, então diretor da obra, a quem descreveu a situação, exortando-o a aceitar a sua demissão, que acabara de apresentar por escrito. O diretor, não sabendo se deveria rir ou chorar, não foi sensível ao pedido do Carlos.

*Artigo publicado na edição de julho do Jornal de Cá.

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