A Cultura não é despesa. É investimento. Nas pessoas

Por Elvira Tristão, professora
A encerrar o ano 2021 o Centro Cultural do Cartaxo apresentou a já habitual programação pré-natalícia, contemplando um leque alargado de espetáculos, eventos e iniciativas ao gosto de diversificados públicos.

O grupo de teatro amador da Associação Cultural e Recreativa do Rancho Folclórico do Cartaxo voltou aos palcos do CCC com o teatro de revista, tão do agrado das gentes do Cartaxo, desta feita com a peça “às voltas com o bicho”.

As associações, coletividades e demais instituições puderam usufruir das excelentes condições deste equipamento cultural para as suas celebrações e eventos.

O artista Luís Qual presenteou-nos com mais uma exposição das suas mais recentes pinturas e esculturas, que os alunos do Agrupamento de Escolas Marcelino Mesquita puderam visitar, com a professora Ana Isabel Vieira, no âmbito do Plano Nacional das Artes.

E, para mim, a cereja no topo do bolo foram os espetáculos “o inesquecível professor”, uma produção do Teatro Nacional D. Maria II, no âmbito do programa de descentralização cultural Rede Eunice AGEAS, e o espetáculo “O estado do mundo (quando acordas)”, uma coprodução da companhia Formiga Atómica e da Associação Materiais Diversos.

O Centro Cultural do Cartaxo é uma infraestrutura, dotada de recursos técnicos e humanos, que acolhe as instituições e associações locais, garantindo o direito constitucional de fruição e criação artística aos residentes e a todos os que constituam uma mais-valia para a valorização cultural do território concelhio e regional. É essa a função de uma sala de espetáculos municipal. Mas as funções do Centro Cultural do Cartaxo não devem esgotar-se no serviço público ao associativismo local. A sua missão é também promover a criação de novos públicos junto dos mais novos e tornar efetiva a descentralização cultural, atraindo companhias profissionais de elevada reputação e qualidade que sirvam de motor económico a outras atividades, como, por exemplo, a restauração ou o alojamento.

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O Centro Cultural do Cartaxo é um equipamento cultural de referência, com proximidade à capital e inserido na NUT II Alentejo. Trata-se de um equipamento que reúne todos os critérios técnicos para pertencer à rede nacional de cineteatros e tem vindo a ganhar uma dinâmica de espetáculos de excelência que, espero, não seja desperdiçada pelo novo executivo.

A Rede Eunice AGEAS, através do protocolo com o TNDMII, tem trazido ao Cartaxo o que de melhor se tem feito no teatro. O protocolo com a Câmara Municipal do Cartaxo prevê um biénio de espetáculos que, com a pandemia, é de todo justo que venha a ser alargado por mais um ano. E estou convicta de que esta pretensão, se assumida pelo executivo municipal, será bem acolhida junto do conselho de administração daquele teatro nacional.

Uma outra parceria de grande importância estratégica para a cultura no Cartaxo é a que existe entre a Câmara Municipal do Cartaxo e a Associação Materiais Diversos. A mais recente evidência dessa mais-valia foram as três sessões do espetáculo “O estado do mundo (quando acordas)”. Com antestreia na Sociedade Filarmónica Incrível Pontevelense, no Festival Materiais Diversos, em outubro, esta peça de teatro para crianças e adultos, que nos fala da emergência climática de uma forma extraordinária, estreou no LU.CA (Teatro Municipal Luís de Camões, em Lisboa) e, de seguida, veio para o Cartaxo. Vai circular pelo Minho e França e só no final do ano estará de novo em Lisboa.

Por cá foram muitos os que puderam assistir ao maravilhoso espetáculo cuja mensagem é mais do que oportuna. No âmbito da parceria entre o Agrupamento de Escolas Marcelino Mesquita e a Câmara Municipal do Cartaxo, mais de duas centenas de crianças do 4º e do 5º ano tiveram o privilégio de assistir ao que de mais atual, inovador e pertinente se faz em teatro para crianças e jovens. E tudo isto graças a uma rede de parceiros que se apoiam mutuamente. A DGArtes que apoia a Associação Materiais Diversos, o Centro Cultural do Cartaxo que acolhe e apoia os artistas apoiados pela MD e as crianças que fruíram gratuitamente de um espetáculo a que de outro modo dificilmente assistiriam.

Estou convencida de que a programação cultural de um equipamento como o Centro Cultural do Cartaxo tem de ser feita com sentido estratégico, mantendo uma rede de parcerias que promova e apoie novos talentos ao mesmo tempo que aposte em protocolos de descentralização cultural, procurando financiamento direto ou acolhendo projetos financiados.

Nada disto colide com o apoio ao associativismo. Antes pelo contrário, promove a circulação de novos talentos, os que vêm até nós e os que de nós se dão a conhecer.

O novo executivo tem toda a legitimidade para imprimir mudanças estratégicas na política cultural. Mas seria desejável e inteligente que tirasse partido das parcerias que poderão fazer da política cultural um eixo estratégico de valorização económica e territorial e, ao mesmo tempo, cuja programação estivesse estrategicamente orientada para as jovens gerações. Tudo isto, naturalmente, conciliado com a atividade de associações como a Área de Serviço, o Grupo Cénico Kaspiadas, a Associação Cultural e Recreativa do Rancho Folclórico do Cartaxo, as escolas de Ballet da Sociedade Filarmónica do Cartaxo e do Ateneu Artístico Cartaxense, entre outras associações locais ou regionais.

Será também fundamental continuar a apostar na programação regular de cinema, procurando também aí parcerias com instituições e programas ou associar-se a festivais. E porque não apostar a sério no cinema infantil, tirando partido do facto de o Agrupamento de Escolas Marcelino Mesquita ter aderido ao Plano Nacional de Cinema?

Para alimentar uma estratégia cultural inclusiva, diversa e qualificada não são necessários orçamentos gastadores. Mas é fundamental contemplar a cultura como um investimento na educação, na valorização do território e na dinamização económica. Para isso há que manter uma rede estratégica de parceiros, garantir equipas motivadas e qualificadas, e ponderar uma criteriosa escolha de despesas correntes e de capital que tenham retorno social e económico. Concluindo, os meus votos para 2022 e seguintes são de que a cultura continue a ser vista como uma área de elevada importância estratégica para o executivo municipal.  

Isuvol
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