A dança das províncias

Opinião de Miguel Montez Leal

O Ribatejo enquanto tal, apenas surgiu administrativa e juridicamente em 1936, embora muito antes quem vivesse nas margens do Tejo se considerasse ribatejano. Essa consciência fazia com que povoações como Azeitão ou Alcochete fossem tidas como ribatejanas, pois faziam parte da bacia hidrográfica do Tejo. Esta província abarcava as duas margens deste rio ibérico, indo até às faldas da Serra da Arrábida. Daí para baixo, sim, falava-se de Alentejo e do muito remoto Algarve, que apenas foi integrado totalmente em Portugal em 1249, no tempo de D. Afonso III, mas antecedendo em muito a Reconquista de Granada de nuestros hermanos castelhano-leoneses em 1492.

O Ribatejo foi depois extinto pela Constituição de 1976, e desde então já se denominou Lisboa e Vale do Tejo, para mais tarde passar a fazer parte integrante da Lezíria Média do Tejo, ou até pertencendo ao Alentejo, de forma a captar fundos comunitários da União Europeia. Nada disto obstou a que a nossa província perdesse a sua identidade, mas também não nos devemos esquecer do trabalho de brilhante propaganda de António Ferro, que bebendo na História e na Antropologia, deu um rosto ao Ribatejo e “inventou” inúmeras tradições. Data dessa época o culto do Ribatejo marialva, de touros, campinos, touradas, ranchos e fandangos, que ainda hoje é apreciado por tantos dos nossos conterrâneos, mas que não é assim de tradição tão secular.

Quando em 1936 foram criadas novas províncias em Portugal, um dos meus bisavós, nascido em Leiria em 1877, ficou muito zangado pois passava de estremenho a beirão-litoralense. Tinha nascido no centro de Leiria, coração da Estremadura, não muito longe do castelo, e agora com 59 anos de idade passava a ser beirão, um desgosto para este meu querido bisavô.

O Ribatejo fez parte durante séculos da Estremadura e quem nascesse, por exemplo em 1910 ou 15, no Cartaxo, era estremenho, e não ribatejano. O meu bisavô António F. Leal e o meu avô Alfredo Leal, nasceram no Cartaxo: o primeiro em 1860, e o segundo, em 1890, os dois estremenhos. O meu pai que também nasceu no Cartaxo, nasceu ainda estremenho.

A Estremadura e o actual Oeste têm com esta parte do Ribatejo muito em comum. Um certo casario disperso nas povoações, ruas serpenteantes e nem sempre bem alinhadas (ao contrário do Alentejo), uma cultura do Vinho e do ócio, romana e cristã-pagã. Para o ribatejano, ou antigo ribatejano destas bandas, o actual Oeste – Bombarral, Cadaval, Óbidos, Foz do Arelho, Caldas da Rainha, São Martinho do Porto, Nazaré – é para muitos a nossa segunda casa. Olhamos para o Montejunto e verificamos se este está encoberto. Se está nebuloso, as praias da zona também o estarão, se está descoberto, as praias estão sob um sol de rachar. Os nevoeiros da zona, a Lagoa de Óbidos, são o nosso Lock Ness, com castelo medieval e tudo. Os vinhos, as frutas, os licores, a gastronomia, o artesanato, o património de mosteiros, igrejas e alguns solares, as quintas, e casais, os pomares, e as ginjas, são parte da nossa cultura de antigos estremenhos, que vão a banhos para o Oeste.

Só a denominação Oeste, ainda bastante recente, me causa escalofrios. Faz-me logo pensar em pistoleiros e em duelos ao Sol. Já estou então como o meu bisavô! Óbidos, Caldas, a Foz e São Martinho são a Estremadura, não o Oeste!

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Boas férias para quem as possa fazer. Quem não consiga fazê-las, poderá sempre procurar uma sombra, agarrar num livro, fazer jantares com os amigos, com as suas famílias, e observar as estrelas do céu. Ainda nos é permitido sonhar nestes tempos duros que a Europa atravessa. *O autor não adopta o acordo ortográfico vigente.

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