Opinião

A (des)inteligência artificial

"Mais que o já useiro pishing, a pirataria está de vento em popa e voa impunemente nos canais noticiosos, cria realidades paralelas e semeia a desconfiança e o medo. Quem arrisca nos dias de hoje aceitar um mero convite numa rede social ou atender uma chamada de spam?" Invictamente, por João Fróis

By Jornal de Cá

June 11, 2025

Está o mundo em alvoroço, com uma crispação social a lembrar o século XX, com ameaças de toda a escala, entre guerras e assomos tirânicos e o maior perigo voa entre nós mais rápido que o som.

Como quase sempre sucede, os piratas estão um passo à frente de toda e qualquer inovação e transformam-na em algo diferente da sua génese. É precisamente isto que está a abalar o mundo como nunca antes, mas sem que se lhe atribua a real importância que verdadeiramente tem. A Inteligência artificial (IA) veio para ficar e está a mudar paradigmas e a acelerar processos no mundo científico e a mudar conceitos e formas de pensar e atuar em múltiplos setores produtivos pelo mundo. Sendo uma realidade recente, ainda não existe uma consciência definitiva sobre o potencial do seu raio de alcance, mas os perigos são já percetíveis ao cidadão comum. Basta atentar à profusão das fake news que inundam o ciberespaço e envenenam as fontes, distorcem factos e lançam inverdades a cada segundo. Paralelamente temos bots a dispararem telefonemas em catadupa com o intuito de captarem a voz dos destinatários e a usarem artificialmente contra si. Mais que o já useiro pishing, a pirataria está de vento em popa e voa impunemente nos canais noticiosos, cria realidades paralelas e semeia a desconfiança e o medo. Quem arrisca nos dias de hoje aceitar um mero convite numa rede social ou atender uma chamada de spam? Já não se trata de dar voz a vendedores de produtos bancários ou energéticos, os perigos vão muito mais longe e não faltará muito para as sabotagens digitais serem virais e lançarem o caos num mundo que colocou as fichas todas na web.

Assim como as guerras estão a dispensar os soldados, com os drones a assumirem as despesas dos ataques como ficou evidente na bem-sucedida ofensiva ucraniana aos bombardeiros russos, também a IA irá substituir muita da mão de obra humana e isso trará problemas económicos e sociais a uma escala sem precedentes na história do trabalho operário. A Europa já está a sentir esse impacto e o pior está por vir. A China transformou-se a uma velocidade vertiginosa e tem hoje uma gigantesca máquina produtiva com suporte em IA, dificilmente acompanhada, para não usar o termo impossível, pelos EUA e pela Europa. O ocidente caiu no erro de há quarenta anos deslocalizar a produção industrial para a ásia, procurando aumentar os lucros (ab)usando da mão de obra barata. A China e também a Índia, o gigante económico que se segue, aproveitaram e desenvolveram-se e criaram uma capacidade produtiva sem igual.

Mas se aí a IA está a ser utilizada em proveito da maior eficiência e rapidez de processos, existem, em paralelo, empresas de pirataria cibernética que estão a ameaçar os sistemas financeiros e económicos mundiais. Não são filmes de ficção científica, são uma realidade omnipresente e uma ameaça muito séria ao modo de vida tal como o conhecemos. A espionagem move-se na dark web e a pirataria usa e abusa das potencialidades da IA para literalmente assaltar o mundo. Muito se fala em segurança das populações mas quase nunca sobre este tipo de ameaças cada dia mais letais. Não defendo limites ao uso da internet, mas a China e outros estados autoritários riem-se das nossas vulnerabilidades e não enjeitam lucrar com elas. Os desafios do mundo ocidental são enormes. Manter as liberdades individuais e coletivas e aumentar os níveis de segurança parecem ser dois mundos inconciliáveis, mas algo terá de ser (bem)feito, sob pena de os populismos se tornarem imparáveis, agitando toda a espécie de medos, sejam os óbvios imigrantes ou os velhos dogmas de crenças ideológicas e religiosas.

Estaremos no limiar do fim da internet livre tal como a conhecemos? E pior ainda, no estertor da democracia, cada vez mais ameaçada pelos autoritarismos? Cumpre lembrar que 71% da população mundial vive sob regimes autocráticos e que ao contrário do que sucedia há quarenta anos, as democracias estão a decair em qualidade e em número. Há cem anos, na ressaca da 1ª guerra mundial estavam a crescer regimes que rapidamente se transformaram em ditaduras e se mantiveram até à década de 80 do século XX. Estamos agora a viver algo semelhante, mas agora em modo acelerado, à boleia dos avanços científicos e da polémica IA. Alguém conseguirá prever a dimensão do que nos espera? Talvez a IA…