A Europa e o medo

 

Pringles e Felicidade, por Ana Benavente

Ana BenaventeTal é a força dos jornais, rádios e televisões, que tenho mesmo que falar do medo que domina a Europa.

Temos assistido à invasão de países – lembram-se da guerra do Iraque e do modo sorridente como Durão Barroso – agora presidente do banco mais tóxico do mundo – recebeu poderosos, entre os quais George Bush, na Base das Lages? É apenas um exemplo. Têm deposto regimes, têm morto militares e civis, têm executado ditadores. Invadem e destroem as instituições dos países. Entretanto, a guerra civil na Síria continua (quem não se lembra da civilização Assíria?) e os atentados terroristas são quotidianos, de Kabul (Afeganistão) a Bagdad (Iraque). Já nem ligamos. Morre muita gente mas não os conhecemos, parece-nos lá longe.

Mas eis que actos terroristas chegam aos próprios Estados Unidos (em que sempre foram constantes) e à Europa. A Europa que se uniu, depois da terrível segunda guerra mundial. A Europa da solidariedade entre povos, a Europa desenvolvida e culta.

Desculpem, enganei-me, a Europa das burocracias, das sanções aos países do sul, a Europa das desigualdades, a Europa que continua a cultivar os racismos. A Europa, como ela é, a viver uma tal crise democrática que países fundadores da União Europeia, como o Reino Unido, dela decidiram sair.

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E o que acontece então? Ficamos indignados, com medo, escandalizados que tal possa acontecer. Na nossa terra? França, Bélgica, Alemanha?  Que medo!

O medo é tal, que, com demasiada frequência, um acto tresloucado, inspirado pelo desespero e imitando imagens televisivas, se torna frustrante por não estar ligado ao Estado Islâmico ou ao Daesh. Foi o que aconteceu há dias em Nice (em resposta, os franceses bombardearam a Síria e mataram 200 civis) e, agora, na Alemanha. Vemos as forças especiais correrem por todo o lado, vemos pessoas a cair mortas, vemos emissões de 24h a acompanhar cada gesto ou palavra.

Tragicamente, ninguém pergunta: que mundo criámos nós, em que um jovem de 18 anos, sozinho e deprimido, com perturbações mentais, maltratado na escola (vítima de “bullying” diz-se agora – nós dizíamos, “gozado”, “abusado” com brincadeiras parvas e, como adultos, intervínhamos. Ou não era?) que acabou por se suicidar, em Munique, foi o “herói do mal e do medo” que fez tremer os presidentes dos Estados Unidos e da Europa?

Diante desta actualidade, só me lembro dos saberes populares: “quem semeia ventos, colhe tempestades”, “quem não deve, não teme”, “antes de falar dos outros, olha para ti”, etc., etc.

Pois é. Erdogan, numa Turquia em estado de sítio, prende magistrados, professores e jornalistas, mas a Comissão Europeia ocupa-se de saber que “multas” vai impor a Portugal por não ter extorquido ainda mais impostos e desemprego aos seus cidadãos – para suportarmos o sistema financeiro. É só ver os milhares de milhões que já pagámos a Bancos falidos sem responsabilidades de ninguém.

Bem sei, é um texto um pouco “descosido”, os pensamentos são mais rápidos que as palavras.

É o estado do mundo. Comigo estão, de dia e de noite, os dramas dos refugiados e dos migrantes.  Damos cabo do planeta e damos cabo uns dos outros. Talvez, por isso, sempre tenha dito, em privado, que só tenho medo, mas medo, duma coisa: da estupidez humana. Aí está.

 

*A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.


 

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