A extinção

Por João Frois

Em 2009 o então secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, afirmava que o mundo avançava em passo acelerado para o abismo. Os sinais eram já mais que evidentes, do imenso stress a que o planeta estava sujeito pela ação do Homem. 13 anos depois e algumas conferências climáticas pelo meio, Paris em 2015 e Glasgow em 2021, a sucederem às de 1972 na Suécia, 1992 no Rio de Janeiro e 1997 em Kyoto, Japão, pouco se avançou. Como diz o velho adágio, de “boas intenções está o inferno cheio”. Na verdade, os esforços tão repetidamente propalados nas agendas políticas mundiais, têm-se revelado pífios. As reduções nas emissões de gases com efeito de estufa são manifestamente insuficientes para a emergência climática que já é impossível de negar. 2022 é já considerado um dos anos mais quentes desde que há registos, e ainda estamos em Agosto, e o mundo está perante a maior seca dos últimos 500 anos. Por toda a parte se veem rios secos, a revelarem barcos afundados nunca antes vistos, em locais onde era até há pouco tempo impensável haver falta de água. Entretanto surgem tempestades enormes que descarregam em poucas horas a chuva que deveria cair em algumas semanas ou até meses, resultando em cheias abruptas e destruidoras de tudo à sua passagem.

A escassez de água coloca em risco milhões de pessoas e os efeitos arrasadores sobre a agricultura somam ainda mais problemas de nutrição e sobrevivência para cada vez mais países neste mundo em colapso iminente. A humanidade evoluiu imenso desde a revolução industrial no séc. XVIII em Inglaterra mas foi no pós-guerra que se criaram as condições ideais para o boom populacional que conhecemos. Para termos uma ideia da dimensão do fenómeno, atentemos que em 1800 existiam cerca de mil milhões de seres humanos no planeta. Na 2ª guerra mundial eram 2 mil milhões e a partir daí o crescimento foi na ordem de mil milhões a cada 13 anos. A humanidade demorou milhares de anos até atingir o bilião de seres e a meio do séc. XX almejou alcançar esse número em apenas escassos treze anos. Para logo em igual período seguinte lhe juntar outro tanto e assim sucessivamente, estimando-se que atualmente sejamos 7,7 mil milhões de pessoas no mundo. Mas as previsões não são animadoras. As projeções apontam para 9,6 mil milhões de pessoas em 2050 e uns avassaladores 10,9 mil milhões em 2100. Apesar de haver uma desaceleração potencial, a verdade é que o futuro afigura-se preocupante, para os otimistas, e à beira do fim para os pessimistas. Pelo meio os realistas tentam encontrar soluções que permitam que o colapso continue apenas a ser uma palavra no dicionário e não a extinção da raça humana. Porque é disso que se trata, sem meias palavras.

Sem água não há vida. Foi o milagre de milhões de anos de evolução deste planeta singular que permitiu existirem oceanos e a partir daí surgir a vida tal como a conhecemos. Ora são esses mesmos oceanos que estão sob imensa pressão e estão a “retaliar” com estrondo. É em si que se geram as nuvens e a chuva e as alterações das correntes oceânicas e o aquecimento e acidificação constantes, estão a originar ondas de calor sufocantes, secas galopantes e tempestades de chuva, frio e neve que tudo destroem. Os equilíbrios das estações desapareceram e vivemos hoje variações climáticas abruptas em horas, dias e semanas, com alternâncias esmagadoras e inimigas da produção agrícola e do abastecimento de água regular. As migrações subsarianas a caminho da Europa não fogem só da guerra mas cada vez mais da fome, da sede e da morte. Cenário que se está a estender a zonas do mundo onde ninguém se atrevia a projetar qualquer tipo de escassez. Veja-se a China, a América do Sul, a Índia e necessariamente cada vez mais países em África. 

A economia mundial desenvolveu-se a um ritmo frenético após o fim da 2ª guerra mundial. Com a paz da guerra fria foi possível desenvolver indústrias pesadas e tornar o acesso a bens outrora apenas de alguns a cada vez mais pessoas por todo o mundo. Foi assim que o automóvel chegou a um ratio de 6 pessoas por cada veículo produzido, estimando-se que existam atualmente cerca de 1,4 mil milhões de automóveis. 

E que dizer do surgimento do turismo de massas, permitindo que milhões de pessoas pudessem visitar paragens outrora apenas visíveis nos livros e televisões. Os voos passaram de alguns milhares anuais para uns impressionantes 230 mil diários, ou seja, mais de 80 milhões num só ano. E com a acessibilidade que a internet trouxe estimam-se que atualmente sejam quase 5 mil milhões de pessoas a aceder diariamente a este mega rede digital global em todo o mundo, a maior parte delas através de smartphones. Os consumos de energia são massivos, quase absurdos e os impactos que geram sobre o ambiente são desastrosos.

E que dizer da alimentação de tantos seres humanos? A cada vez mais polémica carne, continua a ser a maior fonte de proteína para a população mundial. Cada norte-americano consome entre carne bovina, suína e de aves, cerca de 100 kg por ano. A China ronda os 50 kg por habitante. Isto nos 20 principais consumidores deste bem animal. Só nestes dois países consomem-se anualmente uns esmagadores 150 mil milhões de kg de carne por ano. E voltamos à água pois para tudo ela é indispensável. Para produzir um kilo de carne bovina são necessários 15 mil litros de água. Uma pequena piscina. Para o seu equivalente suíno cerca de 6 mil e de aves 4 mil litros por cada kilo. Mas do lado vegetal, o produto mais consumido no mundo, o arroz, necessita de 2500 litros para gerar um kilo. Uma alface requer mais de 200 litros do precioso líquido e uma banana cerca de 180 litros. Tudo o que consumimos e usamos consome água e esta, na sua versão potável, não aumenta no seu ciclo de renovação natural. Apenas 3% da água do planeta é potável e as reservas estão sobre enorme pressão tal a demanda imparável na sua procura e utilização. Para piorar o cenário os níveis de poluição não param de aumentar e o fenómeno dos microplásticos nos oceanos demonstra-o com evidências cada vez mais incontestáveis. 

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Desde 1970 que se usa um índice indicador do esgotamento dos recursos naturais do planeta, ou seja, o momento em que a Terra não consegue repor o que a humanidade consumiu. E em cada ano esse momento tem vindo a ser mais precoce. O dia da sobrecarga do planeta aconteceu a 31 de Dezembro em 1970 e a partir daí tem ocorrido sempre mais cedo. Dez anos mais tarde já ocorreu em fins de Outubro, em 1990 aconteceu em inicio do mesmo mês em 2000 a meio de Setembro. Em 2010 deu-se em início de Agosto e atualmente ocorre em finais de Julho. Em 50 anos a humanidade almejou esgotar os recursos disponíveis na Terra ao fim de apenas 7 meses, significando que para manter o abastecimento das necessidades necessita de 1,75 planetas. Mas tal como os ecologistas difundem em slogans por todo o mundo, não há planeta B. Estima-se que a continuar assim, 75% de toda a vida possa desaparecer nas próximas décadas e nós estaremos entre elas, pois não será possível sobreviver sem as interdependências naturais que sustentam a vida biológica de animais e vegetais. 

Existem negacionistas de toda a ordem, com agendas mais ou menos politizadas e que preferem viver e olhar para o momento e deixar os imensos problemas para as gerações vindouras. Mas além de ser uma atitude deplorável e incompreensível ao negar o valor inestimável do legado, revela a pior face do ser humano, o egoísmo no seu estertor, o individualismo exacerbado, o vale tudo sem olhar a meios, e no fim da escala, o salve-se quem puder. Sempre assistimos nos anais da história, à subjugação dos mais fracos sob o poder dos mais fortes, quebrando e sofrendo os primeiros para a bem aventurança e felicidade dos últimos. E no mundo atual, apesar da crescente democratização no acesso ao bens de toda a ordem, a verdade é que as desigualdades agudizaram-se. Os direitos humanos são constantemente atropelados, a competição pelo acesso ao trabalho gerou novas escravaturas e a sobre exploração dos recursos nos países mais pobres despoletou níveis de miséria e fome nunca antes vistos. O esgotamento está a acontecer, em todo o planeta e já ninguém parece conseguir inverter a queda no abismo.

E vivemos numa catarse hipnótica alimentada por cadeias e correntes de informação e contra-informação onde as fake news semeiam a confusão, a desconfiança e o descrédito nas instituições mundiais. Estamos monitorizados pelos nossos aparelhos pessoais e que não dispensamos. Nunca houve semelhante adição como a fomentada pelos smartphones. Embriaguez coletiva pela vertigem do momento, pela ilusão de controlar tudo à nossa volta e conseguir estar omnipresente nos inúmeros eventos que incessantemente acontecem e nos aliciam. Os inventores do capitalismo desconheciam este potencial que a tecnologia trouxe mas obviamente que a capitalização deste manancial gera hoje em dia fluxos monstruosos e imparáveis de circulação de bens e pessoas e consequentemente torrentes de lucros para quem as propicia. Pelo meio a satisfação destas novas necessidades é como uma enorme teia de onde já não conseguimos escapar, toldando o discernimento e o raciocínio, vergados ao peso enorme da gratificação que tem de ser alcançada.

E por fim a indiferença. Temos uma guerra na Europa, a gerar perdas de vidas humanas, migrações forçadas, escassez de energia e bens alimentares, mas nunca se voou tanto como agora, nunca os espetáculos esgotaram tão rapidamente. Após dois anos de castração social provocados pela pandemia, vivem-se tempos de sofreguidão e histerismo, como se o mundo acabasse amanhã. E na verdade esse amanhã está a caminho. Inexoravelmente. O fim do mundo que víamos nos filmes das décadas de 80 e 90 do séc. XX, está infelizmente a saltar das telas e a ser a realidade. Pode não ser através de um meteoro ou de uma invasão alienígena e acontecer abruptamente. É menos visível mas não menos letal e o que esses filmes condensavam em minutos serão para nós alguns anos. Alguém está preparado para o declínio e a queda no abismo? Porque aqui não haverá heróis que nos salvem do pior dos inimigos, nós mesmos. 

Por fim dizer que adorava não ter razão e que fosse ainda possível travar a fundo e inverter esta aceleração estúpida e suicidária para a extinção. Todos temos a palavra e o poder da escolha. Para que o dia em que já não seja de todo possível mudar o rumo do colapso, não aconteça. Haja esperança.

Isuvol
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