A histeria histórica

Opinião de João Fróis

Vivemos hoje a era do absurdo.

Em poucos anos, reavivámos a velha censura e demos-lhe asas na vertiginosa e perigosa comunidade digital mundial.

Que o mundo é violento todos os sabemos. Basta observar um noticiário ou pesquisar alguns sites na incontornável internet. E se por um lado temos vindo a ser adormecidos pela profusão ad nauseum dessa mesma violência, banalizando-a, assistimos por outro a episódios que por serem filmados se tornam virais em poucas horas, inflamando hostes de jovens sedentos de algum protagonismo.

O abominável ato de tortura de George Floyd gerou uma onda de protestos à escala mundial e que, em primeira análise, demonstra que a humanidade está viva e certa dos seus mais elementares direitos. A defesa da vida figura à cabeça dos demais e aqui foi dramaticamente abalroado com a morte deste homem, de modo agonizante.

O que já custa a entender são as pilhagens e destruição que surgem a reboque destas manifestações de génese pacifista. Se vislumbramos um aproveitamento vil e rasteiro das circunstâncias do caos, a verdade é que a mensagem que se cola aos protestos passa a ser a violência e a vendetta pura e dura, sem olhar a meios.

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Já tínhamos assistido a estas lamentáveis situações nos famosos protestos dos coletes amarelos por toda a França. Da ideia subjacente ao protesto, legítimo, rapidamente se passou a hordas de arruaceiros e destruidores de tudo o que encontram na sua vertigem insana.

E eis que num ápice, à boleia da questão racial, se começaram a derrubar estátuas de personagens históricas que, de uma ou outra forma, possam ter tido atitudes racistas no seu percurso de vida. Sem sequer tentar entender que à época as questões entre raças eram diversas e que nem todos as favoreciam.

A velha questão racial continua a incendiar um mundo desigual e com feridas permanentemente abertas e que não parecem poder ser saradas. Mas não cabe aqui aprofundar o tema racismo. Haverá muitas e boas ocasiões para tal.

O que me traz aqui é sobretudo o papel da História na sociedade e a falta gritante de conhecimento e entendimento da evolução humana a que assistimos. A História não se denuncia. Nem tão pouco se julga. Mal ou bem, somos fruto de tudo o que aconteceu no curso das sociedades e da sua própria evolução social, económico e política.

Heródoto, um dos pais da História na Grécia clássica do séc.V a.C., afirmava a ciência que estuda o ser humano e a sua ação no tempo e espaço. E se o espaço mantém alguma constância, já o tempo é incessante no seu curso e é nele que a vida vai girando. Já nos séculos XVIII e XIX, Hegel afirmava os factos históricos como produção do instinto da evolução inata do Homem, disciplinados pela razão. Acontecimentos regidos por ideias e estas como geradoras da realidade. Na sua antítese, Marx e Engels, numa perspetiva materialista da História, viam nos acontecimentos económicos e nas condições sociais a mola do determinismo histórico. Com as suas diferenças óbvias, percebiam o papel da História como tábua mãe da deriva humana neste planeta e de onde se bebem ensinamentos essenciais para a evolução da espécie. Milhares de anos antes, Confúcio afirmava que “ se queremos prever o futuro, devemos estudar o passado”. Tanta sabedoria em tão poucas palavras. E é precisamente a falta de estudo e de conhecimento que andam a encher as ruas de desordeiros e justiceiros de trazer por casa. Não conhecem a História, não percebem a evolução e a perspetiva histórica ao tempo de cada indivíduo e sem esse contexto fazem linchamentos populares do bom nome de quem já não se pode defender. Tudo isto sem discernirem que estão a cuspir na civilização que lhes deu berço e lhes permitiu a liberdade de pensarem e agirem sem censura nem medo, as armas que agora arremessam contra o legado dos que nos trouxeram até aqui e permitiram com o seu passado, termos um presente e um futuro, por mais que incerto se afigure.

Por isso afirmo: há muito que, cada vez mais, a História e a cidadania devem ser disciplinas obrigatórias e determinantes nos currículos escolares. Temos de formar cidadãos e não hordas de acéfalos que não sabem e, pior do que isso, não querem saber, nem de onde vieram nem tão pouco quem, com o seu esforço lhes permitiu existirem. E, rapidamente, se transformam em archotes humanos dos populistas manipuladores deste mundo em colapso civilizacional.

Abaixo a histeria. Viva a História!

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