A indisciplina e a falta de respeito pelos professores

Por Sónia Parente, psicóloga clínica

Há uns tempos para cá, o professor perdeu o respeito dos pais dos seus alunos e, por consequência, o respeito dos seus alunos.

Atualmente, o professor não pode nem consegue realizar o seu trabalho: ensinar conteúdos académicos e ensinar limites e regras de convivência em sociedade.

O professor não pode realizar o seu trabalho porque, como é do conhecimento de todos, a maioria dos pais (não todos, mas muitos) perante uma chamada de atenção mais ríspida por parte do professor no dia seguinte irão “tirar satisfações” e dizer à professora que não lhe permitem que fale assim com o seu filho. Muitas vezes mesmo na frente do filho que se sente cada vez com mais poder. Castigos então, nem pensar…pôr um aluno de castigo (por menos relevante que este seja) implica ter de lidar com a zanga dos pais, que não concordam que ponha o “seu menino” de castigo, seja qual for a razão, incluindo falta de respeito para com o professor. O aluno vai ganhando cada vez mais a sensação de que os seus maus comportamentos na escola vão sair sempre impunes e por isso a tendência é a portar-se cada vez pior, referindo muitas vezes ao professor que se ralhar com ele ou o puser de castigo “eu digo à minha mãe e depois ela vem cá”.

O professor não consegue realizar o seu trabalho porque é impossível ensinar conteúdos académicos perante a indisciplina da maioria dos seus alunos. E se o professor for mais áspero ao tentar impor-se perante uma turma indisciplinada, já sabe que nos dias seguintes será o próprio professor que irá ter consequências e não os alunos.

Uma ideia negativa relativamente a todos os professores está generalizada, podem existir professores menos competentes, como em qualquer profissão, mas a maioria gosta dos seus alunos e tenta incutir-lhes regras e limites para bem deles. Não são perseguidores nem torturadores de alunos.

Os pais querem o melhor para os seus filhos, óbvio, mas ao desautorizarem o professor não o estão a fazer, pois é suposto na escola também aprenderem regras de convivência com os colegas e com os adultos. Se houve um mau comportamento do aluno a culpa ou é da professora ou de outro aluno, o seu filho não “porque ele não é assim”. Esquecem-se que um miúdo em situação de grupo é natural que se comporte de forma diferente de quando está sozinho.

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Será que os pais sabem que sem ser na sua presença, os filhos se vangloriam que conseguem “dar a volta aos pais” especialmente se chorarem, como já tantas vezes ouvi? É normal, são miúdos e os miúdos são assim: se sentem que podem não ter consequências de um mau comportamento óbvio que se vão aproveitar, manipulam a realidade em seu favor e se vêem que resulta mais ainda o farão. Faz parte de ser miúdo.

O que é estranho são os pais adultos que se deixam manipular pelos seus filhos e se deixam levar pelo sentimento de amor pelos filhos e não pela racionalidade.

Que consequências terá este super-proteccionismo dos pais nesta geração?

Pode correr mal. Nunca aprendendo que errou, o aluno não irá refletir e preocupar-se em melhorar o seu comportamento. As crianças e jovens não adquirem a noção de que dos seus maus comportamentos advirão más consequências para si, o que influenciará na formação de valores, princípios e limites, e perante situações futuras vão repetir o que aprenderam: uma má atitude não terá consequências.

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