À memória do Dr. Egas de Azevedo um humanista que viveu em Pontével

Por Rogério Coito

José Egas de Azevedo e Silva nasceu em Santarém a 3 de Maio de 1877, filho do general José do Sacramento e Silva e de Sebastiana da Piedade Gomes da Silva. Depois de concluída a instrução primária fez o curso dos liceus, em Évora, e o universitário em Coimbra, donde saiu com a licenciatura em Medicina e o Bacharelato em Filosofia e Matemática. De boa compleição física, pronto aos 24 anos para iniciar a actividade, foi atingido por uma fatalidade: um cancro na cara que o estigmatizou para o resto da sua vida. Foi a Bordéus para uma primeira operação. Mas, passado um ano, a doença voltou a manifestar-se e uma segunda intervenção impõe-lhe uma marca no rosto para sempre. Abdicou da vida social e, com medo de envolver a mulher que amava, rompe o noivado. Esquecendo-se de si, inicia uma cruzada contra o sofrimento alheio e estabelece-se em Pontével como médico do partido municipal, mas no exercício da sua actividade atende enfermos de vários lados, praticando a filantropia do bem até à exaustão em tempos da “pneumónica”, o que lhe valeu a outorga, pelo governo, do Grau de Oficial da Ordem de Benemerência, ele que era afeito a honrarias. Morreu aos 87 anos vítima de um acidente vascular cerebral, lúcido, com vivacidade de espírito e grande aprumo físico.

Em 1991 um grupo de amigos recolheram e editaram em livro as facetas deste Homem como médico e poeta romântico, bem como excertos de cartas que recebeu de personalidades tão diversas como os professores doutores Fernando da Fonseca ou Caeiro da Mata, escritores como João de Deus, Fialho de Almeida ou Marcelino Mesquita, políticos como Manuel de Arriaga, Gomes Leal ou Teófilo Braga. Pontével deu-lhe honras de busto num jardim da vila num conjunto escultórico de Fernanda Assis, que foi roubado no início de 2013. Primeiro roubaram-lhe os óculos. Depois a cabeça de bronze e até hoje nada apareceu.

Inaugurado em 1991 no jardim fronteiro à casa onde habitou e onde exerceu clínica, dele ainda ecoam algumas histórias vividas e contadas por familiares de quem as viveu. Certa vez, consultou uma idosa e, no final, ela perguntou-lhe quanto lhe devia. E ele, verificando que a idosa era pobre, disse-lhe que não lhe devia nada. Mas a idosa insistia. Então vira-se para ela e diz-lhe: olhe, paga-me quando as galinhas tiverem penas azuis (certo que as galinhas nunca teriam penas azuis). Só que a velhota foi para casa a pensar no assunto. Passado uns dias, comprou uma lata de tinta azul, pintou as penas da melhor galinha que tinha no galinheiro e foi levá-la de presente ao médico.


Rogério Coito é historiador e escreve segundo a antiga ortografia, este texto foi publicado na Revista DADA nº71, edição impressa de dezembro de 2017.


O busto de homenagem ao Dr. Egas de Azevedo foi reposto no dia 4 de maio de 2019

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