A nova normalidade

Por João Fróis

Habituemo-nos. Nada será como antes. Por mais que queiramos escamotear a realidade e rapidamente voltar ao ritmo folgazão e despreocupado com que vivíamos os nossos dias atarefados, a verdade crua e nua é incontornável, 2020 ficará como a marca indelével na transformação deste mundo frágil e na forma como podemos viver as nossas vidas.

Vivemos sob uma pandemia mundial. E que tem mostrado o quão impreparados estavámos todos para lidar com semelhante ameaça. Nenhum dos países deste mundo global teve capacidade para conter e melhor gerir os danos imediatos e colaterais deste vírus insidioso e de meteórica propagação.

O medo do colapso dos sistemas de saúde levou a decisões políticas que esvaziaram as liberdades individuais, esmagadas pela força de estados de emergência com diferentes níveis de restrição, consoante a perceção do perigo e a explosão de contágios e doentes internados nos cuidados intensivos, pondo a nu as fragilidades hospitalares e de recursos para assistirem a tão numerosas solicitações.
Aos poucos vamos sabendo um pouco mais sobre o vírus.

Atentemos no exemplo islandês. Este pequeno país insular, de 360 mil habitantes, decidiu testar toda a população e concluiu que metade dos positivos com Covid19 não apresentava qualquer sintoma da doença na altura em que foi testado. Ora isto demonstra as fragilidades evidentes dos sistemas de diagnóstico mundiais. O campeão no numero de testes é atualmente o diminuto Bahrein, com cerca de 28 mil testes por milhão de habitantes. As evoluídas Noruega e Suíça têm 20 mil testes por milhão, a Austrália cerca de 12 mil, assim como a fustigada Itália e Portugal, num honroso 14º lugar neste ranking, onde a poderosa Alemanha apresenta um ratio de 11 mil testes por milhão de habitantes. A China não surge nesta lista, não porque tenha uns assombrosos 1300 milhões de habitantes mas tão só porque não divulga dados sobre a doença.

Fica evidente que com tão pouca capacidade para testar, as hipóteses de termos milhões de infetados assintomáticos ou até mesmo com sintomas não comunicados, são enormes.

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Para piorar o cenário temos um outro problema, os falsos negativos. Também já se sabe que muitas das pessoas que tiveram contato com alguém infetado, deram negativo após a realização do teste. Os erros nas colheitas, as famosas zaragatoas, estarão na base deste desvio que estima-se possa chegar a uns preocupantes 30% dos testados.

Temos assim um vírus com uma enorme capacidade de dissimulação e que viajou incógnito em milhares de hospedeiros assintomáticos e pré-sintomáticos pelo mundo fora. Foi assim que gerou esta pandemia mundial. E que ameaça continuar a fazer por longos meses até que consigamos ter uma resposta efetiva a nível científico. Mas esta nunca será imediata. Conseguir criar uma vacina e tê-la em numero suficiente para a imunização da população mundial demorará nunca menos de um a dois anos.

Até lá os desafios políticos e económicos são gigantescos.

Percebeu-se com uma rapidez assombrosa quão frágil é esta economia global. O seu nível de inter-dependência nunca tinha sido devidamente mensurado e esta pandemia pô-lo a nu em poucas semanas. O capitalismo assenta na oferta e na procura e esta vertigem foi levada ao expoente do consumismo com uma miríade de milhares de produtos de tudo e nada, tantas deles supérfluos quão dispensáveis. Mas que dizer de a maior indústria do mundo, o turismo, assenta no lazer e na recreação? Conseguimos viver sem viajar? Claro que sim, aliás o fenómeno do turismo em massa explodiu nos últimos 20 anos e fez dos nossos céus um vai e vem alucinante de milhares de aviões, sem cessar. Mas alguém hoje em dia, tendo alguma capacidade, cede no desejo de viajar e ter as merecidas férias?

A mesma questão se coloca para idas a restaurantes, a eventos múltiplos, culturais e desportivos, a feiras e exposições. A vida é feita de momentos e o desejo de que sejam mais ricos e diversificados é legítima e natural no homem moderno. E é precisamente desta vida lá fora, feita de movimento, de socialização e convívio que sentimos falta. Nós e toda a economia. Porque tudo está intrinsecamente ligado. Sem procura, agora confinada em casa, a muita oferta definha e morre. Os negócios precisam de clientes e estes gostam de consumir livremente, gerando cadeias de prestação de serviços intermináveis mas frágeis, como este vírus veio demonstrar. Para a economia, parar é efetivamente morrer. E é neste paradoxo que vivemos e que se tentam antecipar cenários do regresso à normalidade.

Os planos de saída da crise estão em andamento, pois os danos na economia mundial e na vida de todos nós são tão evidentes quanto assustadores. O colapso é uma triste evidência e que alguns tentam já evitar a todo o custo.

A Áustria apresentou já o seu plano pós estado de emergência. Com um calendário com várias fases. Reabertura de pequenas lojas já dia 14 de Abril, seguidas das maiores no início de Maio e da restauração e hotelaria a meio desse mês. No entanto os eventos continuarão adiados e as escolas enceradas até final do semestre em curso. Neste período e de modo a prevenir uma re-infeção em massa, o uso de máscaras será obrigatório em supermercados e transportes públicos.

Temos assim um vislumbre do que podem vir a ser os próximos meses das nossas vidas. Com datas e regras algo diferentes, mais tarde ou mais cedo todos os países irão avançar para a fase pós estado de emergência. E esta será condicionada e com regras de segurança e controlo sanitário evidentes. Será esta a nova normalidade. Habituemo-nos à ideia para não sofremos o choque de sair à rua e desejarmos viver como antes. Não será possível, pelo menos nos próximos tempos. E só a ciência nos trará a resposta de como iremos viver nos anos seguintes.

Pode não ser admirável, como Aldous Huxley apelidava no seu premonitório livro, mas este mundo novo veio para ficar. Adaptemo-nos.

Quanto melhor mais livres conseguiremos ir sendo nesta lenta viagem de retorno à velha normalidade.

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