A pegada

Opinião de João Fróis

No rescaldo de mais um festival Sudoeste, que invariavelmente leva milhares de jovens à Zambujeira do Mar para dias de festa, diversão e convívio, embalados pelos concertos que animam as noites, houve uma imagem que marcou a negro um evento que deveria ser apenas colorido. A lixeira imensa em que o parque de campismo e matas em redor ficaram, como se uma horda de bárbaros a tivesse assaltado. E se são as novas gerações que necessariamente nos irão substituir, então as nossas preocupações devem passar a alertas de imperiosa ação, tais os sinais de quase total ausência de civismo e respeito pelo que é de todos.

Portugal está em alta, anda nas bocas do mundo e é hoje um dos grandes destinos turísticos mundiais. Quem nos visita gaba a nossa autenticidade, tradições e costumes, para lá dos incontornáveis clima, comida e paisagens. Mas se há algo que não nos orgulha e que nos deve a todos pôr em sentido, é a perpetuação de atitudes condenáveis e a sua banalização doentia. Nas mesmas praias que esses turistas visitam, continuamos a ver beatas de cigarros na areia, embalagens diversas e restos de comida, por mais caixotes de lixo que sejam disponibilizados. O português tipo continua a comportar-se como se fosse dono do mundo e os demais o estivessem ali para servir. Haverá sempre algum “pacóvio” que irá limpar, arrumar e embelezar o que esse canastrão insiste em aliviar das suas responsabilidades com total despudor.

Ver a pegada que esses adolescentes e jovens adultos deixaram atrás de si é revoltante e obriga-nos a questionar o que andamos a fazer enquanto sociedade, ao não conseguirmos passar a mensagem do respeito pelo outro, pelos espaços públicos e pela ordem e salubridade dos mesmos. Não podemos nem devemos conformar-nos a estes sinais de desnorte civilizacional e aos efeitos dificilmente mensuráveis que podem assumir num futuro próximo.
Neste mundo cada vez mais ligado, ver o exemplo notável das crianças e jovens no Japão, faz-nos sentir uns vândalos, egoístas e cegos à destruição que causamos na nossa vertigem consumista e de satisfação dos egos instantâneos. No país do sol nascente as crianças são ensinadas a limpar os seus espaços, a contribuir para o zelo da via pública e a deixar literalmente como estava antes da sua passagem. Também aqui houve uma imagem marcante, o balneário da seleção de futebol nipónica ficou imaculado após o seu afastamento do mundial. Nas bancadas os adeptos limpavam o lixo à sua volta. Exemplar. E nós por cá, que fazemos? Comportamo-nos como arruaceiros sem nos importarmos com o tamanho da nossa pegada ecológica.

Para quando o ensino da cidadania como disciplina obrigatória nas escolas? A educação é o princípio e o caminho incontornável do futuro!

  •  Artigo publicado na edição de setembro do Jornal de Cá.
Pode gostar também