“A política no Cartaxo é hoje falsa, barata e desconcertante”

Paulo Neves, sem papas na língua como é seu hábito, diz o que lhe vai na alma sobre a política e o futuro da cidade. Uma conversa com o empresário que foi candidato à Câmara em 2009 e que hoje, como vereador na oposição, já salvou a Câmara de cair

É primeiro político ou empresário?
Eu sou primeiro empresário e depois político. Mas comecei a interessar-me pelos destinos do Cartaxo há muitos anos. Fui desafiado para projetos políticos com os quais não me identifiquei até que, em 2009, aceitei um desafio que achei com interesse. Demorei alguns meses a digerir e acabei por aceitar ser candidato à Câmara.

Havia alguma expetativa?
Eu quando vou às coisas estou habituado a ganhar. Para mim foi uma deceção. Mas uma derrota é uma derrota e temos de continuar a fazer o trabalho. Em 2013, como não tinha atingido os objetivos em 2009, pus o meu lugar à disposição. Houve muita polémica a dizer que eu tinha sido empurrado para segundo lugar. Não é verdade. Eu é que disse sempre que, do segundo ao último lugar, estaria à disposição. Cabeça de lista é que não seria porque as propostas que apresentei no primeiro projeto não foram aceites pelas pessoas. Apesar de ter sido o melhor resultado de sempre do PSD as pessoas acabaram por não acreditar em mim e confesso que foi com dificuldade que aceitei essa derrota.

Porque é que o PSD nunca ganhou eleições no Cartaxo? Há alguma justificação?
Para mim há. Vamos situar no tempo. O estado calamitoso a que o concelho chegou deve-se inteiramente ao PS. Mas as pessoas habituaram-se a seguir a política como se segue um clube de futebol. Eu acho que na política autárquica não deve ser assim. Deve apostar-se nas pessoas.

Acha que as pessoas encaram os partidos como clubes de futebol?
Exatamente. Embora saibamos que temos impostos no máximo devido à má gestão socialista que existiu desde sempre no Cartaxo. Retifico: após a saída do dr. Renato Campos. Na história recente do PS Cartaxo, a seguir ao dr. Renato Campos, saiu um presidente para secretário de estado e abandonou o concelho, saiu um vice-presidente, que foi para a banca temporariamente para ingressar num instituto para gerir fundos comunitários. Outro presidente saiu para a banca e está numa instituição empresarial. E resta o último presidente que foi o único que foi para uma empresa privada. A verdade é que a Câmara do Cartaxo serviu de trampolim a todos.
E vou mais longe, o dr. Vasco Cunha, meu companheiro de bancada, que é deputado da nação, foi o único que arriscou sair de um lugar confortável para comandar os destinos da sua terra. Vinha ganhar menos dinheiro, com mais trabalho, mais responsabilidade. Essa é a figura mais relevante neste percurso desde o 25 de Abril. Fez o percurso inverso dos candidatos socialistas.

O PSD Cartaxo costuma ser criticado por ser um partido fechado. Como independente sente isso?
Olhe, eu ando de norte a sul do país, e vejo no PSD empresários, funcionários públicos, pedreiros, serventes, operários. No Cartaxo o PSD é conhecido pelo partido das pessoas ricas, o que não é verdade. O Cartaxo é das poucas terras onde o partido é encarado assim. Mas isso é completamente falso. Eu, por exemplo, não sou rico. Luto por manter os postos de trabalho da minha empresa. Mantenho os mesmos postos de trabalho desde que se instalou a crise. Se calhar as pessoas do PSD são pouco conhecidas. Se calhar isso tem de mudar dentro do partido. Talvez o meu sucesso como cabeça de lista do PSD venha daí. Eu sou uma pessoa desinibida, que trabalho durante a semana mas ao sábado gosto de ir a um café, de ir a uma adega e estar com amigos. E convivo com pessoas de todas as classes sociais, de todos os quadrantes políticos. Se calhar, acabo por dar um pouco de razão, falta um bocado de proximidade entre os membros do PSD e a população. Mas vamos ser sinceros. Eu não vejo ninguém do PS na rua. A única pessoa que vejo na rua, do PS, é o Délio Pereira. O Pedo Ribeiro nunca se vê. Vejo-o agora em inaugurações ou festas de coletividades. E dantes nem se via. O PSD é capaz de estar mais virado para a população do que os outros, só que passa discreto.

É sempre uma voz difícil de calar no executivo camarário?
Eu normalmente não misturo amizades. Eu sou amigo de todas as pessoas que estão naquela mesa. Mas digo tudo o que tenho a dizer e tudo o que me vai na alma. Na Câmara tenho de dizer o que acho que devia ser feito. Para mim, saltitar de reunião em reunião não nos leva a lado nenhum. Eu quando era estudante tinha a alcunha do “confusões”, porque não deixava acabar uma aula sem perceber o assunto. Os problemas têm de ser resolvidos na hora. Há muitas coisas na Câmara que já deviam ter sido resolvidas.

Não dá nota positiva à atuação do presidente?
É uma resposta difícil de dar. Eu sou amigo do Pedro Ribeiro. E ser amigo é saber criticar e saber elogiar.

Vamos então às críticas…
Olhe, vir para as redes sociais dizer que o Cartaxo foi a quarta Câmara que mais se ‘desendividou’ entre as 308 do País, é uma falsidade. Ele está a vender banha da cobra. O que está a ser feito é trocar dívida por dívida.

Mas isso não é fazer política?
A política tem que ser feita com transparência. Volto a dizer que isto é banha da cobra. Segunda questão que nasce na última reunião de Câmara. Qual é o problema do PS, ou do presidente em votar favoravelmente uma proposta do PSD para a cedência do espaço da escola dos Casais Lagartos à Junta de Freguesia de Pontével? Se o executivo não tem meios, nem tempo, para manter os espaços verdes da cidade, que capacidade terá para manter aquele espaço. Porque vai votar contra os interesses daquela freguesia? A justificação que ele dá é que os outros espaços não foram cedidos, portanto este também não deveria ser. Não podemos é esquecer que os outros espaços estão ao abandono. Mais valia terem sido cedidos.

E os elogios?
Os elogios que tenho feito ao presidente é que tem estado presente em todos os actos oficiais que acontecem no concelho. Eu, se calhar, não estaria nessa disposição e acabaria por delegar no vice-presidente ou outros. E já lhe disse que perder uma hora de reuniões camarárias, onde devíamos estar a trabalhar para o concelho, a ouvir o relato de todos os sítios onde o presidente esteve é uma perda de tempo.

No final do mandato o Cartaxo vai estar melhor?
Pelas notícias parece que o Cartaxo está num mar de rosas. Mas não está. Há que lembrar que algum do alívio que se vive é motivado pela viabilização, da vinda do FAM, que se deve ao PSD. Se essa aprovação não tivesse acontecido, a Câmara tinha paralisado, os funcionários não iriam receber os salários, não se pagava a fornecedores. Fizemo-lo para dar uma segunda oportunidade a este executivo porque o pior que poderia acontecer ao Cartaxo era mergulhar nessa crise.

Essa decisão de voto, que a si se deve, foi muito elogiada.
Sinceramente isso passa-me ao lado. Não estou ali para receber elogios. Não ando à procura de protagonismo. Estou ali para tomar decisões. Pior que decidir mal é não decidir. Eu não estou ali para ser parte de uma engrenagem. Estou para ser parte da solução e foi o que fiz. Não me preocupei com nada. Não podia era ver o antigo presidente de Câmara não viabilizar uma coisa que foi da sua responsabilidade. Fui obrigado a assumir uma quota-parte da responsabilidade por a aprovação ser obrigatória por lei. Se não, a notícia hoje não era que a que tínhamos sido o quarto maior pagador de dívida no universo das 308 Câmaras. Daí a política no Cartaxo ser hoje falsa, barata e desconcertante.

A aventura política não tem custos pessoais?
Tem. Na minha área profissional não teve. Mas também porque na minha empresa há duas coisas proibidas de falar: futebol e política. Mas já me trouxe dissabores. Problemas familiares graves e de ser apelidado de uma série de coisas, que muito me desagradam, mas, com as quais lido bem.

Até onde vai na política. Será outra vez candidato?
Hoje respondo que não. Mas o não de hoje pode ser diferente amanhã. Isto é muito relativo. Mas tenho uma ideia sobre o que poderá ser o futuro do Cartaxo.

O que faria se fosse eleito hoje?
Não estou a pensar em mim. Temos uma pessoa com experiência, dedicação, envolvimento com o concelho. É um homem honesto com uma capacidade de trabalho extraordinária. Acho que é um homem que se as pessoas deixarem de olhar para a sigla do partido e apostarem na pessoa será um grande presidente da Câmara. Eu, como independente, olho para o Vasco Cunha como um extraordinário presidente da Câmara do Cartaxo. Reconheço-lhe uma competência fora do comum.

A população do Cartaxo está a desistir, está a sentir-se derrotada?
Até eu me sinto derrotado. Quando se paga IMI, IMT, taxas de saneamento, de recolhas de lixo, todos os impostos no máximo com certeza que a curto prazo não haverá qualidade de vida para os cartaxeiros. Para haver qualidade de vida as pessoas têm de ter emprego, ter algum dinheiro no bolso e para gastar. E esse futuro não se vislumbra.

Como é que se chegou a isto?
Para mim o problema do Cartaxo começou no mandato do dr. Conde Rodrigues quando se lembrou de fazer aquela obra megalómana de pôr a Rua Batalhoz apenas com um sentido. Esse é o início do problema. A seguir foi o disparate da construção do Parque Central. Mas é com o trânsito da rua Batalhoz que se começou a matar o comércio e a vida da cidade.

Uma palavra final aos Cartaxeiros.
Que continuem a acreditar no Cartaxo como eu acredito. E que deixem de olhar para as siglas dos partidos e olhem para as pessoas capazes de fazer a diferença na cidade.

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