A posse

 

“Invictamente”, por João Fróis

joao froisAndamos todos preocupados com os múltiplos desafios que este mundo em convulsão nos vai colocando e nesta vertigem de sobrevivência e oportunismo vamos esquecendo o quão sociais somos e a importância crítica da sua vivência em pleno.

Assistimos hoje a uma sociedade mais fragmentada e dissociada, conectada virtualmente em janelas digitais onde tudo parece estar próximo mas que, na verdade, está assepticamente longe. As mudanças no tecido social e na sua formação são evidentes e estão à vista de todos mas filtradas por um distanciamento egocêntrico entre um ‘like’ e uma efetiva participação comunitária.

Aponto o foco aos jovens e às suas relações sociais e afetivas. Sendo certo que a evolução das mentalidades é lenta e as transformações nem sempre são percetíveis a olho nu, a verdade é que os velhos fantasmas da “posse” estão bem vivos na construção e vivência dos relacionamentos adolescentes e jovens adultos. Estes que são o futuro próximo e a geração seguinte de decisores da sociedade. Se antes eram o machismo tradicionalista a imperar, colocando as mulheres num patamar de quase subserviência, imposto pela moral castradora e seguidista de modelos antiquados em que eram as próprias mães a modelar, por baixo, as suas filhas, assistimos hoje, na era da suposta igualdade entre géneros, a fenómenos preocupantes de violência no namoro, a vários níveis e assumidamente transversal em várias faixas da sociedade. A comunicação é hoje online e exercida com presença em várias redes sociais e, se à partida, poderíamos supor que esta participação no mundo virtual e sem fronteiras traria mais abertura e avanços, repensemos os nossos paradigmas. A verdade nua e crua é que os jovens estão a espiar-se constantemente e assumem como natural que o façam, obsessivamente. Desconhecem na sua maioria que estão a atentar contra princípios como a liberdade e o respeito pela individualidade e privacidade. Por falta de exemplo dos seus progenitores, eles mesmos em crise identitária, crescem com modelos antigos, mascarados de “modernistas” pela profusão de ‘likes’ nas redes onde se inspiram e procuram assentimento e audiência.

As velhas inseguranças emocionais que tantos frustraram e violentaram, encarcerando-os em teias diabólicas de medo e perda de autoestima estão bem vivas e não apenas de volta. Os jovens agridem-se hoje, física e verbalmente, com uma frequência e ligeireza que espanta e merece toda a nossa atenção. Temos de olhar atenta e interessadamente para as gerações que estamos a criar e a quem devíamos à partida, dotar do melhor que fomos aprendendo. Mas não é isso que vemos e temos de parar e refletir. Urge repensar o modelo escolar e é para mim imperioso que haja disciplinas estruturantes de Cidadania e educação Sexual. Porque deixar apenas aos pais esses ensinamentos não está a funcionar e a velha escola da rua, onde crescemos nos idos anos 70, 80 e ainda 90, terminou, já não havendo essa partilha e comunhão que tanto ajudava a moldar as mentes e a dotar cada um de nós de uma espinha dorsal moral sólida e duradoura.

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Ninguém é de ninguém e todos merecem ser respeitados na sua individualidade e opções. Impor a aceitação da violência, do abuso e medo como “norma” aceitável entre as gerações mais jovens está errado e deve ser combatido por todos nós; pais, professores e instituições sociais intervenientes na educação. Urge criar cidadãos esclarecidos, humanistas, respeitadores e participantes na construção ética de uma sociedade em transformação e sujeita a inúmeros desafios. Bem hajam todos. Para um futuro possível.


 

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