A pressão insustentável

Opinião de João Fróis

Num mundo imerso na pandemia por Covid19 e sob uma enorme pressão económica, social e mental, a verdade é que a maior pressão que nos assola é a que impomos ao planeta e aos seus recursos naturais.

A delapidação das fontes energéticas e produtivas aproxima-nos da voragem das pragas de gafanhotos. Em cada ano que passa esgotamos os recursos potencialmente disponíveis no 7º mês, necessitando de 1,75 planetas para continuar a assegurar a sobrevivência da espécie humana.

A população mundial ronda os 7,8 mil milhões de seres humanos e a cada ano cresce na ordem dos 72 milhões, quase tanto como a população alemã.
Vivemos num mundo vergado à lógica capitalista, onde o crescimento é a ordem primeira. Crescimento nos resultados e lucros, no consumo de bens e recursos, numa (i)lógica que sugere a infinitude de probabilidades. Nada mais errado, como uma observação atenta nos mostra à evidência. Para alguns crescerem, muitos mais padecem de oportunidades, de bens e de bem-estar. As desigualdades são cada vez maiores num sistema económico que muitos quiseram ver como auto-regulável. A crise do sub-prime em 2008 atirou por terra este mito. O crédito é o verdadeiro poder de um sistema falível que mantém cativos à prestação e renda todos os que dele dependem para almejar ter casa e automóvel. A especulação faz o resto do trabalho sujo, apertando a teia desta pressão cada vez mais mortífera, aprisionando o futuro de sociedades inteiras.

São os donos do dinheiro que mais resistem às mudanças urgentes que cada vez mais pessoas defendem. Porque a viabilidade da vida como a conhecemos só será possível se o consumo baixar, drasticamente. E o consumo é a mola desta economia global. Na gestão desta oposição gritante se irá jogar o futuro da civilização nas próximas décadas.

Se ouvimos as chocantes notícias da desflorestação da Amazónia e seguimos as nossas vidas, indiferentes ou conformados, a verdade é que sem o pulmão da terra a captação de CO2 cairá a pique, choverá cada vez menos e a temperatura subirá para níveis absurdos. O degelo irá ser brutal, o nível de subida dos mares inundará boa parte das cinturas costeiras onde vive 70% da população mundial. A produção agrícola será devastada por doenças e escassez de água. A fome alastrará. O caos será completo.

Não só a Amazónia sofre. Neste ano aziago de 2020 já foram destruídos 4,6 milhões de hectares de floresta e mais de 10 milhões passaram a desertos. A água escasseia e são já cerca de 800 milhões de pessoas que não têm acesso a água potável. Muitas dessas constam dos cerca de 17 mil mortos diários por sede e fome neste mundo doente.

Fome que assola cerca de 850 milhões de seres humanos, um pouco mais que os 770 milhões de obesos, num mundo de contrastes em que 1,7 mil milhões têm excesso de peso. Ou seja, 30% da população mundial come mais do que necessita, enquanto 15% está no limiar da sobrevivência.
Mas não só de alimentação se faz o consumo. A energia, entra ela o petróleo, com reservas para mais 30 anos e o carvão, para mais 100, é vital para manter ativos, iluminados e quentes grande parte das casas e empresas, uma vez que as renováveis ainda são insuficientes para nos livrar da tenebrosa produção de CO2 e do asfixiante efeito de estufa.
Vivemos numa panela de pressão gigantesca. Que é também a nossa casa, a nossa horta e o nosso riacho.

A cegueira desta civilização só se percebe pela curta esperança de vida do ser humano e pela vertigem egocêntrica que este modelo social e económico nos foi impondo.

O legado, esse sentimento ético da passagem de testemunho para as gerações vindouras, está também ele sob uma enorme pressão. Estamos a viver como se não houvesse amanhã e fôssemos os últimos desta civilização. Se nada for feito de verdadeiramente decisivo que mude os paradigmas em que vivemos, poderemos bem ser as últimas gerações de humanos. Sem apelo nem agravo. Só os cegos insistem nas teorias fantasiosas que Donald Trump e outros negacionistas defendem. Porque a verdade está bem à vista de todos, em cada dia que passa, bastando estar atento aos imensos sinais de perigo e alarme. Clima altamente instável, mais quente e menos chuvoso, mais tempestades e incêndios. E pela ação humana, mais florestas abatidas, espécies extintas, oceanos inundados de micro-plásticos. Mais doenças e com o potencial infetaste que a Covid19 nos veio demonstrar.

Urge agir. E mudar. Saibamos cada um de nós interpretar essa urgência e moderar a nossa pegada ecológica. Resta-nos ter fé que os senhores do mundo façam a sua parte. Para tal temos de os ajudar a lembrar e a acelerar as mudanças de que depende o presente e o futuro das novas gerações.

Pode gostar também