A Primária, em Apartheid

 

“Estorial, com ou sem história”, por José Caria Luís

José Caria LuísOs anos 50 estavam aí. A Escola Primária, em regime de Apartheid, também. Se, para muitos, esse facto nada tinha de transcendente, era apenas o início de uma nova década, o mesmo não se poderá dizer para aqueles e aquelas que, no dia 7 de outubro, por força dos seus 6-7 anos, foram chamados à liça, isto é, ao SEO. Esta pomposa sigla, agora inventada, trocada por miúdos, traduz-se em Serviço Escolar Obrigatório. Falo por mim, porque o choque foi brutal. Mesmo para aquela malta travessa que, durante o dia, fazia uma série de diabruras por esses vinhedos adentro, e nos tempos livres andava sempre à bulha, aquele episódio da apresentação foi muito traumatizante. A manter-se aquele ritual nos tempos que correm, não faltaria trabalho para psicólogos, psiquiatras e afins. Sim, porque coitadas das criancinhas!

Parece que estou a ver as cenas. A professora Lucinda, de batinha branca vestida, sentada na sua poltrona, a auditar as mães, uma a uma, cada qual com o seu rebento pela mão. Estes, só faziam figura de corpo presente, já que, durante a cerimónia, nenhum abriu o bico. Se aquilo fosse sempre assim, a Escola seria uma maravilha… Mas não era. De cada vez que entrava um par (mãe e filhote) na Sala de Aula, aquela trintena e meia de alunos levantava-se, em sinal de cortesia. Ato contínuo, elevavam o braço direito e, com este hirto, numa saudação ao estilo nazi, faziam as honras da casa, neste caso, da Escola. Tudo corria bem. A coreografia não era feia; mesmo tendo em conta as carantonhas que alguns bacanos nos faziam, a fim de nos amedrontar; mas o pior foi a vergastada que a professora deu na secretária, no propósito de acalmar a horda. Empunhando uma enorme cana-da-índia cheiinha de nós, bateu com esta na secretária com tal força que deve ter libertado para cima de uma centena de decibéis. Naquele instante assustei-me. E, mesmo em ambiente estranho, fiz uma birra dos diabos. Mas isso foi só uma entrada minha, para marcar território, porque, volvido algum tempo, já eu era tão ou pior que aqueles. Agora, passada que foi a cerimónia de apresentação, era hora de adaptação aos bons e maus costumes vigentes.

Vi, depois, que o Apartheid existia. Era real a separação entre géneros. Sim, porque do outro lado da barricada também havia Escola. Era a secção feminina. E, ao contrário daquele ambiente depravado no setor masculino, as nossas amigas princesas gozavam de uma paz e imunidade tais que, estabelecendo um paralelo entre as duas, dir-se-ia que era o Inferno e o Céu. O famigerado e sinistro muro de separação entre géneros era aterrador. Mas, além da fronteira física que esse muro representava, havia um prolongamento virtual do mesmo. Rapaz ou rapariga, que fossem detetados para além da linha invisível, era denunciado/a à Mestra. Estas, além dos bofetões, palmatoadas e canadas com que brindavam os alunos, ainda os excomungavam, diante das plateias.

Bullying era mais com a rapaziada. Eu, bem vistas as coisas, nem lhe chamaria esta inglesice. As brigas eram sempre a dois. Clãs e grupos para malhar nos outros, não conheci. Cada qual que se desenrascasse.


 

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