A saborosa hipocrisia

Opinião de João Fróis

Na antiga Grécia os atores de teatro usavam máscaras de acordo com a peça que representavam e aí nasceu a ocultação da realidade através da máscara da aparência. A hipocrisia evoluiu ao longo dos tempos e foi adquirindo as vestes do fingimento, da falsidade e dissimulação de sentimentos, crenças e virtudes, tantas vezes afirmando algo e fazendo o seu contrário. A sua ligação antiga aos meandros da política é conhecida e continua bem viva neste mundo de fingimentos.

António Costa, com aquele seu ar de que nada lhe toca e a tudo responde com um sorriso em modo permanente, teve há dias, mais uma das suas tristes e hipócritas tiradas, quando falando na UE e para a mesma se referiu ao ano corrente como “particularmente saboroso” para Portugal. Como? Saboroso, senhor primeiro-ministro? Mas onde para a decência e a respeitosa memória?

Situemo-nos. Sabemos que falava no âmbito das sanções por défice excessivo que assoberbaram particularmente os países do sul da Europa, onde temos figurado no nível lixo. A saída deste quadro financeiro não pode no entanto justificar, uma vez mais, que Costa faça tábua rasa de um ano dramático, manchado a sangue inocente e sofrimentos terríveis por milhares de portugueses e se vanglorie de um pequeno feito estatístico e intitule um ano negro como saboroso. É, no mínimo, uma desonra às vítimas dos incêndios que o chefe do executivo venha sob os holofotes de Bruxelas, branquear as suas muitas falhas e culpas internas, puxando dos galões, a reboque da nomeação de Centeno para presidir o Eurogrupo e com isso colhendo dividendos de benfeitor das contas públicas. Até o poderia fazer noutro contexto mas nunca aligeirando feridas profundas e marcantes no seu próprio país, com aquela desenvoltura prazenteira de “amigalhaço” com que vai a todas e corta fitas. Não senhor primeiro-ministro, não deveria tê-lo feito, assim como deveria ter pedido desculpas sinceras, de imediato, na ressaca das calamidades a todos os que padeceram e muito perderam e não o fez. A sua arrogância é gritante e revoltante. Assim como a sua habitual fuga para a frente, aliviando as culpas que nunca assume e os seus contra-ataques aos que o criticam, trazendo-os para o centro do debate ofuscando as suas próprias falhas. Essas táticas de guerrilha partidária não conseguem no entanto disfarçar a sua verdadeira essência, a de um político profissional, que não olha a meios para atingir os fins a que se propõe e que Passos Coelho provou na pele, e que demonstra uma falta de humanismo e respeito pela dignidade dos cidadãos que representa e governa.

E nesta situação poderia ter dito algo semelhante mas de modo bem mais respeitoso para com “os portugueses e portuguesas com que enche a boca para vender o seu peixe” e permita-me e apenas como exemplo, uma das muitas hipóteses para tal: “num ano difícil e duro a nível interno, com dramáticas catástrofes e perdas de vidas humanas, é com agrado que vemos os nossos esforços recompensados a nível externo, com esta saída do deficit excessivo, ajudando-nos a reforçar o nosso empenho em prol de todos os portugueses e honrando a boa memória dos que padeceram”. Mas este tipo de humildade convicta, de identificação com o povo e os seus problemas reais é algo que escapa a António Costa, sobrando soberba, gestão criteriosa de danos e uma obsessão doentia pelo poder e, consequentemente, pelas medidas generosas que lhe garantam a reeleição. Tudo o mais é supérfluo e isso fica evidente para quem, sem necessidade de lupas nem especiais dotes de analista, ouça e leia o que este habilidoso hipócrita nos oferece a todo o tempo.

Por fim, e para não nos atermos apenas às vítimas das catástrofes dos incêndios, convinha lembrar o primeiro-ministro que os cerca de três milhões de portugueses que vivem na pobreza ou no seu limiar, tendo até 60 por cento do ordenado mínimo como rendimento disponível para viverem com a dignidade, que a si lhe falta em toda a linha, também não se reveem nesse ano saboroso e muito menos nos seus esquecimentos constantes do País real e que pelos vistos pouco ou nada conta para si.

Porque para dizer tais afrontas e barbaridades mais vale fazer como fez perante os escândalos de Tancos e da Raríssimas, remetendo-se ao silêncio. Nestes casos por medo de perder credibilidade e votos, no primeiro para nos dispensar da sua proverbial, desnecessária e arrogante hipocrisia.

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