A tragédia Grega

Opinião de João Fróis

A esta hora estão contabilizados 79 mortos na Grécia, na sequência de terríveis incêndios que dizimaram pessoas, floresta, casas e bens em zonas altamente habitadas e turísticas. Estas imagens dantescas levam-nos ao que de pior tivemos o ano passado entre Junho e Outubro e que também por cá causaram perdas irreparáveis em vidas humanas e danos vultuosos. Por esta altura o norte da Europa está a braços com temperaturas elevadas e que estão a contribuir para incêndios em paragens onde antes eram difíceis de imaginar. Suécia, Finlândia, Estónia, Inglaterra, com as suas paisagens verdejantes assistem à chegada abrupta do demo escaldante e destruidor.

Especialistas climáticos advertem que estas, antes ditas anormalidades, vieram para ficar e que os fenómenos extremos irão ser cada vez mais comuns. Impõe-se perguntar: e estamos preparados para tal? Definitivamente a resposta é lamentavelmente fácil. Não estamos, mas pior, parecemos insistir em nada fazer de concreto para prevenir o caos.

Se as alterações climáticas, iniciadas lentamente com o despoletar da revolução industrial e acelerada e agudizada nos últimos 50 anos com o boom populacional e consequente consumo e devastação de recursos, parecem ser um dado adquirido e que dificilmente poderemos inverter, que dizer da inépcia em assumi-las e tudo fazer para evitar que semeiem a destruição coletiva?

Esta civilização está cega. Acomodou-se no conforto da evolução, ignorando o preço altíssimo que tem a pagar para ter podido chegar até aqui. A natureza obriga-nos a lembrar que somos devedores e que procrastinar só irá piorar o que já de si é dramático. Convencemo-nos que tal como o domínio da comunicação, também o planeta poderia ser domado a nosso belo prazer. Puro engano. Devastar recursos e insistir na queima de combustíveis fósseis demonstra que arrogarmo-nos de espécie inteligente é além de falso, uma arrogante demonstração do seu contrário. Continuamos em guerrilhas infindáveis, intolerantes e xenófobos, sectaristas e classistas. A política faz a encenação patética de tudo parecer normalizado, controlado e pensado. Novo engano. As disputas pelo poder estão acirradas e os populismos inflamados nada auguram de bom pois tendem a olhar apenas para os seus untuosos umbigos, escarnecendo de todos os demais, usando-os e menosprezando-os. Nesta vertigem suicidária, os loucos incendiários que ajudam a inflamar as chamas nestes infernos vorazes, são apenas peões de uma insanidade coletiva que parece tolher, imparavelmente, esta sociedade.

Nas antigas tragédias gregas falava-se de heróis, de deuses e homens astutos e corajosos e das suas desventuras amorosas, feitos militares e conquistas. A Grécia de hoje vê-se a braços com outras tragédias. A financeira que a assombra e ameaça na sua identidade e a climática, onde se junta a um planeta escaldante em risco iminente de colapso. Vamos ficar de braços cruzados?

  • Artigo publicado na edição de agosto do Jornal de Cá.
Pode gostar também