Opinião

A velha Europa

"O desafio maior é assim criar as condições de paz e segurança que permitam que a família volte a ser o verdadeiro centro da sociedade, permitindo a evolução social em liberdade e democracia, com respeito pela diferença e a tolerância como bem maior". Invictamente, a crónica de João Fróis

By Jornal de Cá

April 30, 2026

Tantas vezes apelidada de velha, face ao novo mundo que recebeu de Americo Vespucci o seu nome, a Europa enfrenta múltiplos desafios e que põem em causa o seu papel num mundo cada vez mais global e com o centro económico a desviar-se para o sudeste asiático.

O farol iluminista pré revolução industrial e os ventos transformadores que esta trouxe ao mundo, estão a perder fulgor e a ceder à força imparável da revolução tecnológica que a China incorpora como nenhuma outra nação. O peso da economia está a desequilibrar os pratos de uma balança que há muito perdeu a sua identidade. Os mais fortes são países onde a democracia é apenas uma palavra no dicionário, mas que impõem as leis do seu poderio industrial, caso da China, ou energético, países do médio oriente produtores de petróleo, a ainda motriz principal de um mundo em convulsão e predador de energia.

Assistimos a guerras económicas entre os EUA e a China e a conflitos militares na Ucrânia há mais de quatro anos e agora no Irão e tudo parece girar em torno do poder e do controlo da economia mundial. E nesta oposição entre blocos a europa apenas assiste impotente, como num jogo de ténis em que que não conta para o resultado final da contenda.

Os desafios da União Europeia são de monta. Manter a unidade dos 27 a nível político e económico, desburocratizar as imensas regulações que promove e que são um travão à inovação, definir as apostas industriais e tecnológicas para reequilibrar a balança das importações, assumir uma identidade militar que abandonou no pós 2ª guerra mundial, gerir os fluxos migratórios e a paz social e entre tantas mais prioridades, achar incentivos para contrariar o envelhecimento acelerado que grassa em todo o continente e ameaça a sustentabilidade do modelo social europeu.

As taxas de fertilidade de modo a assegurar a substituição demográfica devem idealmente estar num valor de 2,1 filhos por cada mulher. A realidade europeia atual está nuns parcos 1,38 em média, mas com países como Espanha e Itália com preocupantes 1,12 e 1,18 respetivamente. Com esta tendência a previsão é de um decréscimo populacional de 13% na europa até 2030. E só a imigração tem ajudado a aplacar esta queda nos nascimentos, casos de França, Alemanha, Inglaterra e Itália. A europa está cada vez mais envelhecida, com a esperança de vida a aumentar e a forçar a segurança social e sistemas de pensões para a iminente rotura. O problema só não é maior porque os imigrantes assumem a força de trabalho nos setores mais carenciados de mão de obra e contribuem com os seus descontos para a manutenção do sistema social. O dilema está criado. Sem imigração não há como assegurar a mão de obra que a economia pede, seja na agricultura, na construção civil ou na hotelaria e restauração. Mas se não houver regulação nas entradas geram-se tensões sociais e um crescimento de perceções erróneas sobre quem é exatamente o quê, confundindo quem veio trabalhar condignamente e quem apenas entrou para a plataforma giratória de fluxos migrantes entre países europeus. Portugal tem assistido a muita tensão social gerada a nível político, a exemplo do que há muito sucede nos Países Baixos, na Bélgica, França e Alemanha, mas que se estende a muitos outros dentro e fora da união.

E é aqui que encontramos muitas das razões para que grande parte dos casais jovens não queiram ter filhos, o medo e a sensação opressora da insegurança. Esta perceção é alimentada pelas redes sociais e pelas constantes notícias inflamadas que alguns partidos políticos geram. Temos assim um paradoxo que nos está a asfixiar demograficamente. A sociedade não está a conseguir oferecer as condições ideais para que possam nascer mais crianças, afastando os jovens da natalidade e inflando o individualismo e hedonismo como um fim em si próprios. E só os filhos dos imigrantes vão enchendo escolas e ajudando a que a natalidade não caia ainda mais. Mas o clima odioso sobre estas populações estrangeiras que vivem em Portugal e nos seus parceiros europeus, geram o tal medo que impede que mais jovens se revejam no conceito familiar e possam assim contribuir para o crescimento da taxa de natalidade, assegurando a natural renovação populacional.

Como em tudo na vida urge encontrar o equilíbrio. O mundo sempre foi global e cumpre lembrar que Portugal foi o primeiro país a gerar a globalização com os descobrimentos, abrindo portas ao mundo via marítima e acelerando a fusão de raças. Lisboa era já no século XV uma cidade do mundo, com mercadores de toda a europa e do norte de áfrica e médio oriente. Cabe-nos a nós europeus olharmos a história e percebermos que se fizemos do mundo o nosso palco de aventuras e oportunidades, cabe aceitar que os fluxos são dinâmicos e que as migrações são um fenómeno mais que inevitável, necessário para os equilíbrios sociais e económicos de um mundo cada vez mais global.

O desafio maior é assim criar as condições de paz e segurança que permitam que a família volte a ser o verdadeiro centro da sociedade, permitindo a evolução social em liberdade e democracia, com respeito pela diferença e a tolerância como bem maior. Com princípios, com valores morais e éticos e também com regras, direitos e deveres bem assentes e um sistema de justiça eficaz e garante dessa mesma ordem social. Haja esperança. O caminho tem de ser a unidade e não a divisão. As crianças e jovens do presente e futuro agradecem o legado!