A vida e a morte

Opinião de Ana Benavente

A vida e a morte são duas faces da nossa existência. E esta é uma crónica eventualmente polémica. É bom que assim seja, porque da discussão nasce a luz, não é assim?

Sendo um país de tradição católica, os nossos rituais de nascimento são felizes, os da morte são tristes e chorosos. Aos parabéns sucedem os pêsames.

Claro que temos saudades das pessoas de quem gostamos e que nos deixam. Mas elas vivem dentro de nós. Quantas vezes não converso com a minha mãe, com a minha avó e com o meu pai?! E recordo os amigos que já não partilham o meu quotidiano.

Para os crentes, os que acreditam que “o senhor é meu pastor, nada me faltará”, não percebo bem porque tanto choram. Não acreditam eles na vida eterna?

Para os não crentes, como é o meu caso – respeitando todas as crenças – a morte marca o fim dum ciclo. Gostaríamos que ele fosse mais longo? Com certeza. Mas a esperança de vida aumentou muitíssimo nos últimos anos.

Segundo os dados publicados no PORDATA – base de dados de acesso público online – o número de anos que esperamos viver depois dos 65 anos era, para a população portuguesa de 13,5 anos em 1970 e passou para 18,5 anos em 2009.

Esta nova realidade, bem como as transformações nos modos de vida, com a relação perversa com o tempo, ou a falta dele, que marca a atualidade, bem como os avanços na saúde, trazem-nos outras interrogações.

Porquê? Porque a velhice e a dependência aumentam, com a sua corte de alegrias mas, sobretudo, com novos medos: medo de ficar só, medo da doença, medo de ter que deixar a nossa casa, medo de ir para um lar em que somos apenas mais um. Medo de não sabermos quem somos.

Não tenho medo da morte, tenho medo da degradação.

E este meu sentimento é partilhado por muitos de nós, à medida que os anos passam. Ou não é?
Por isso, defendo o testamento vital, já votado na Assembleia da República mas ainda longe de ser regulamentado. Os projetos aprovados deixam a palavra final à medicina e apenas aceitam a vontade, expressa em plena razão, a vontade individual de ser ou não submetido a determinados tratamentos em situações de doença terminal.

E mais, defendo que se discuta, sem tabus nem falsas e hipócritas morais, o suicídio assistido, regulamentado na desenvolvida Suíça e a eutanásia vigente na civilizada Holanda. Chocante? Chocante é a velhice maltratada, chocante é sofrer sem sentido, chocante é morrer só e ser descoberta anos depois.

Não escolhi nascer mas posso escolher morrer com dignidade, pessoa inteira, lúcida e não senil, doente mas não dependente.

Enquanto temos saúde e razão, olhemos a morte com simplicidade. Nenhum de nós é eterno.

É assim que penso. Viver plenamente, morrer o mais tarde possível, claro, mas sem degradação. E se a recusa da degradação nos levar mais cedo, não faz mal.

E não está escrito no destino, não. Em África morre-se bem mais cedo que na Europa e não será certamente esse um desígnio divino mas sim a consequência da história social e humana. E os rituais servem de consolo para quem fica, não para quem parte.

 

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