A violência “selfie”

 

Opinião de João Fróis

 

O mundo tornou-se pequeno, do tamanho de um ecrã luminoso. Num ápice tudo e quase todos têm acesso ao que se passa no planeta. Ao vivo ou em streaming, com imagens que vão caindo na web, essa imensa rede global que parece não ter fim. E a informação tornou-se um bem de consumo, imediatista e de processos simples. Pronta a ser consumida em segundos, resumida em títulos fortes e sensacionalistas que captem a atenção e alimentem a sede insaciável de novidades, escândalos e insólitos.

Revê-se neste modelo? Entende-o?

“É o mundo que temos” ouve-se profusamente nas bocas das gerações mais velhas, ainda pouco convencidas das supostas benesses deste admirável mundo novo. E do alto da sua sabedoria e experiência, desconfiam das vagas constantes de notícias que entopem os media e são repetidas até à exaustão, nas horas seguintes, para logo cederem o seu tempo de antena a outras, mais frescas e apetecíveis ao consumidor moderno. É usar e deitar fora. Dali vem mais e sempre novo!

É neste tempo que assistimos aos novos assomos de violência e barbárie por esse mundo fora. E que, nos exemplos de Nice e Munique, nos vão mostrando outra face medonha da natureza humana. O terrorismo amedronta o mundo, que apesar de tudo o “entende” numa (i)lógica de arrivismo violento e brutal de fações ideológicas e extremistas, tal como o Daesh o corporiza. Mas que dizer destas ações isoladas, suicidas e que ceifam a vida de inocentes em ruas, lojas e centros comerciais, sem ligações aparentes a qualquer rede terrorista?

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A perplexidade toma-nos de assalto mas após o espanto somos compelidos a refletir a que ponto esta sociedade está a asfixiar e corromper os seus cidadãos.

Percebe-se agora que são indivíduos aparentemente comuns mas que, na sua solidão, varrem a web alimentando os seus medos e fantasmas. De espíritos quebrados por episódios da vida, viram-se contra o mundo, despejando no sangue de inocentes, as suas raivas incontidas e toda a deceção furiosamente calada que em si contêm. Pior que terroristas organizados é a ideia de estarmos a gerar terroristas isolados, em qualquer parte, alimentados pelas torrentes não filtradas de informação que a imensa web disponibiliza a qualquer um. Construir uma bomba a partir da internet parece ser fácil hoje em dia, assim como varrer notícias de ataques, de movimentos e acontecimentos perigosos e violentos que este mundo gera em excesso e que “promove” ainda com mais ênfase.

Chegou a violência selfie. À medida da loucura de cada um e a produzir online os próprios cinco minutos de fama! Mesmo que sejam a matar e a morrer em direto.

Urge perguntar? E promover a violência massivamente não a estará a banalizar e tornar “atraente”?


 

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