Abílio Guerra – um boticário à moda moderna

Por Rogério Coito

Abílio Augusto d’ Albergaria Guerra, filho de José Luís Guerra e de Luísa Maria de Jesus, natural de Coimbra onde nasceu em 1854, cidade onde se licenciou em Medicina e Farmácia com um “canudo” que lhe permitia exercer boticária em qualquer parte do País. Ao Cartaxo chega por amizade a uns primos que por aqui faziam a sua vida e por aqui começa por se instalar na Praça S. João Baptista, nº 34, com uma vasta gama de produtos do seu mester, como nos dá conta num anúncio publicado em 10 de Junho de 1888 no jornal “O Chronista”, tendo, para além da venda de todos os medicamentos em uso, nacionais e estrangeiros, “produtos químicos, higiénicos, drogas medicinais, etc” ainda se encarregava com prontidão de todas as encomendas de Lisboa e do estrangeiro.

A Farmácia naqueles tempos não era só o local onde se vendiam poções para as maleitas que afectavam a saúde, mas também um local de tertúlia e de encontros ou desencontros de opiniões sobre os mais variados temas em que a política não ficava de fora na agitação de ideias sobretudo no contexto dialéctico monarquia/república. Cartaxenses ilustres ou menos ilustres como os irmãos António e Marcelino Mesquita, o padre Fino Beja e outros eram presenças habituais nestas tertúlias, como se respiga no “ Ribatejo” no início de 1900 ao falar do Cartaxo que tinha nas ruas iluminação a petróleo e a bicos de acetileno, nas noites em que não havia luar. “Nas casas, os candeeiros mais ou menos eficientes, alumiavam os serões em família e as tertúlias. Havia o Club e o Grémio, a Banda, e meio mundo passava pela lâmina afiada do Corta-Arame. Jogava-se xadrez e discutia-se filosofia na botica do Abílio (…).”

Entretanto a Farmácia muda para um espaço mais amplo na Rua de S. Sebastião. Abílio Guerra envolve-se na vida cartaxense integrando comissões para a fundação do Montepio e para construção de um novo edifício escolar. O deflagrar da 1ª Guerra Mundial com o seu cortejo de horrores e a entrada de Portugal na guerra são agora as notícias e as preocupações de momento. A vida avança e a idade também. E no Cartaxo ficam os seus restos mortais ao lado dos de sua esposa Maria José da Silva. A Farmácia volta a mudar de mãos, mas mantém sempre o nome do seu fundador. Até hoje.


Rogério Coito é historiador, escreve de acordo com a antiga ortografia, e este texto foi publicado na edição impressa da Revista DADA (nº69), em agosto de 2017

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