Acidentes

Visto de Cá, por Pedro Mesquita Lopes
Sinceramente, foi a sensação que tive ontem à noite enquanto assistia, de comando na mão, para ir rodando pelos vários canais, à revelação dos resultados eleitorais: uma sucessão de acidentes.

Acabámos a noite com uma inesperada maioria absoluta do Partido Socialista: um acidente que ninguém esperava, nem sequer os próprios, e que, esperamos, não traga consequências irremediáveis para o país – a última maioria socialista é de muito má memória.

Noutro lado, outro acidente, este imediatamente grave para os envolvidos, com vítimas e sequelas bizarras: o condutor acidentado começou inesperadamente a falar alemão e uma das passageiras, com responsabilidades na viagem e no veículo, apareceu a culpar a qualidade do combustível pelo seu estrondoso despiste. Foi tudo bastante confrangedor, mais valia ter aparecido o gato.

Numa via à esquerda, um bloco de pessoas que esperava o autocarro para uma viagem de quatro anos foi colhido pelo condutor da mãozinha e, a maioria deles, tiveram de esquecer a viagem e voltar às suas vidas, sem perceberem muito bem o que lhes aconteceu.

Noutro cruzamento, a súbita velocidade do condutor rosa também fez vítimas, um estranho parceiro de viagem que só aparece nas eleições foi-se sem estrondo, apenas com um murmúrio, e os outros, seis para os amanhãs que cantam, pareciam absolutamente azamboados e perderam o pio. Pode ser que recuperem, mas o prognóstico, para já, não é muito favorável.

Sem necessidade de prognóstico só de extrema-unção, ficou o condutor de um dos veículos que se apresentava pela direita. O homem ainda gritou e esbracejou para tentar que o vissem e o ajudassem a empurrar o carro até à bomba mais próxima, mas o movimento era todo noutro lado e, sem ajuda, o desgraçado esgotou-se em faenas sem sentido, abandonou o carro e foi carpir as mágoas para outro lado.

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Havia também uma senhora, que falava em animais e natureza (mas pouco e cada vez menos), que, só por sorte, não ficou a fazer companhia ao tauromáquico inimigo, pois, quando estava quase tudo a fechar, lá conseguiu um bilhetinho para a viagem (provavelmente, a última).

De ontem também fica outro acidente grave, chegaram mais uns quantos condutores de um estranho, dissimulado, poluente e anacrónico veículo, que vive de ressentimento, de protesto, de queixas e de abandono. Não são solução para nada, nem para ninguém, mas se a mãozinha for igual a si própria, daqui a quatro anos serão mais e piores.

No fim, só os liberais e um livre é que não me pareceram envolvidos em nenhum acidente: estudaram as melhoras rotas e conseguiram chegar onde e como queriam; vejamos para onde vão a partir daqui.

Isuvol
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