Açúcar ao desgoverno

Crónica de Vânia Calado

Casou-se no outro sábado. De branco e vestido fechado até ao pescoço. Com festa para a família de parte a parte e de mesa cheia. Bem dito, teve tudo a que tinha direito.

Fazia tempo que o casório andava a ser preparado, ainda nem se sabia qual o noivo que calhava em sorte. O enxoval arrumado na arca lá de casa, costurado pelas mulheres da família. A noiva, dotada de mãos de fada, “bordou cada metro de tecido”, dizia a mãe, “ até aqueles que vi serem entregues na porta da vizinha?”, comentavam. Toda gente sabia que a vizinha era costureira e bordadeira de uma vida e que as mãos da moça ainda eram frágeis.

E foi no outro sábado que a moça se tornou senhora. De respeito. O cabelo, que sempre conhecera caído até à cintura e a fazer-se à vontade do vento, arrumava-se numa banana apertada com ganchos por todo o lado. Nem um fio fora do sítio. Antes de subir ao altar, tinha descido a bainha a todas as saias. Dois dedos abaixo do joelho que só quem não se dá ao respeito é que mostra mais do que deve. E o que se quer de uma mulher casada é que se saiba dar ao respeito. Isso, e que seja governada.

No outro domingo já estava na casa que agora era sua, com a sogra a mostrar de quem era a última palavra. Afinal, ela só ali estava porque tinha casado com o seu filho. Aquela era a sua casa. Seguia-lhe os gestos sem se dar ao trabalho de disfarçar. Contava as favas que punha na sopa, “a carne é só para dar sabor” e bem que chegava um dedo de chouriço e outro meio de chouriça.

A noiva, agora senhora de respeito de pele puxada pela banana enrolada na cabeça e pernas tapadas quase até ao tornozelo, baixava os olhos, esfregava os dedos de uma mão nas costas da outra e assentia sem o fazer. E que ela nem sonhasse que a panela estava a cozer arroz para que fosse doce, senão tinha de levar com o sermão e a missa cantada. “Uma mulher tem de ser governada e doces não é senão desgoverno de quem não sabe o que a vida custa”. Que fosse feita a sua vontade. A da sogra.

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