A agressividade entre as crianças

Sónia Parente, Psicóloga Clínica e Mestre em Psicologia Educacional

Numa sociedade em que o “bulling” nas escolas entre crianças e adolescentes é muito comentado, com alguma facilidade, os pais entram em pânico e tornam-se “leões” na defesa das suas crias.

É com frequência que hoje em dia, perante brigas entre rapazes ou discussões mais acesas entre as meninas, os pais preocupados, na tentativa de minorar o sofrimento dos filhos, vão “tirar satisfações” e defender o seu filho.

Será que são situações tão graves que obriguem a uma intervenção dos pais ou serão as brigas normais entre crianças? Se a criança ou adolescente não aprender a enfrentar e a lidar com as situações mais “chatas” da vida, quando o irá fazer?

O apoio dos pais nestas situações é importante mas mais na perspectiva do diálogo sobre o que se passou, ouvir os sentimentos que foram despoletados e conversar acerca de quais as melhores atitudes a tomar. Tentar resolver a situação por eles não é a melhor forma, pois não resolve nada e pode até piorar as coisas. Por um lado, o filho continuará a não saber o que fazer porque não teve de tomar nenhuma atitude por si próprio, por outro lado, perante o colega será visto como o “queixinhas”, resultando numa imagem de fragilidade para o próprio e para o colega.

O filho deverá ser preparado para se defender, o que não implica agressividade física, mas sim saber-se impor, quando assim tiver de ser, ou ignorar, quando for a melhor atitude a tomar. Manter uma atitude de quem lhe resolve os problemas e estar sempre ali para quando acontece alguma coisa não ajuda a uma integração social natural e ao desenvolvimento e afirmação da sua personalidade. Pode também fazer com que a criança ou adolescente fique intimidado perante qualquer provocação dos colegas e entre assim num ciclo vicioso. A sensação de impotência prevalece e, sem a proteção dos pais, o mundo torna-se ameaçador.

Brigas entre colegas sempre as houve, umas piores que outras, mas talvez antes os pais acreditassem mais nas capacidades dos seus filhos de as enfrentarem e de as resolverem entre eles. Claro que os adultos podem ter de intervir mas sem cair no exagero, que parece ser o caso atual já que perante um conflito lá estão os pais. Felizmente nem todos os pais são assim porque todas as crianças, cada uma à sua maneira, tem tendência a impor-se perante o outro, quer brigando, quer gozando. É a afirmação da personalidade no âmbito social.

A agressividade faz parte do ser humano desde que nasce, é natural e há que aprender a lidar com ela e não fingir que ela não existe. Todos, crianças adolescentes e adultos, têm agressividade que deverá ser doseada, isto é, deverá sair quando tem de sair e controlada quando a situação assim o pede. É através dos conflitos com os pares que a personalidade se vai impondo e assim se vai aprendendo a lidar com a sua agressividade e com a dos outros, ganhando também a noção das suas consequências. A integração social depende disso mesmo, de saber lidar com os outros, sabendo que uns são mais agressivos que outros.

Será que esta excessiva intervenção dos pais nos conflitos dos filhos com os pares não será mais uma vertente da super-proteção atual dos pais?

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